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ACHERONTA MOVEBO: O INFERNO DA INSÔNIA EM TEMPOS DE QUARENTENA

por Francisco C. Duarte

 

“Durmo e desdurmo”, disse Bernardo Soares, um dos heteronômios de

 Fernando Pessoa, no livro de Fernando Pessoa, 

O livro do desassossego.

 

Qual é a função do sono? Dormir ou despertar? O sonho preserva o dormir, porém também produz acontecimentos que nos fazem despertar. Que coisas são os sonhos ? Que coisas eles nos revelam? Por que se tornaram imagens tão aterrorizantes nos tempos atuais? Situamos o neoliberalismo como a força que se expande e determina as coordenadas da época. Uma das representações desta presença, do nosso ponto de vista, é o debate sobre a aceitação ou rejeição como emergente do fim da história. É a nova razão do mundo, do único mundo possível? Um debate que não se dá apenas no plano das ideias, mas também se dá nas ruas e se expande nos conflitos de diversas intensidades, inclusive nos sonhos de terror.

 

Prelúdio

Sabemos que o psicanalista se confronta permanentemente com os novos desafios da época em que estamos imersos.

Os sonhos, disse Freud, são a via régia do inconsciente. Freud toma aí, um verso de Virgílio como epígrafe: “Flectere si nequeo superos, acheronta movebo”. Avançou nessa via com uma vontade inquebrantável.

O ano de 1900 marca o início da psicanálise. Freud publica A interpretação dos sonhos. Em 2020, 120 anos depois, estamos focados em torno do “sonho, sua interpretação e seu uso na cura lacaniana”. O sonho no singular é o sonho que se liga ao sonhador, a um corpo que sonha e que fala desse sonho a seu analista. O sonho se envolve, deste modo, com o corpo falante e com o quê do inconsciente se verifica, quando analisamos o parlêtre.

Como se sabe, sonhos revelam imagens, conteúdos e emoções que frequentemente não coincidem com a vida desperta.

Entre a solução da magia e a solução da ciência, apostaremos na segunda alternativa para desenvolver este artigo.

Aqueles que dizem que as pessoas que vemos na rua podem ser chamadas de sujeitos, certamente não são psicanalistas. Algumas psicologias tomaram o termo sujeito para designar o individual, o indivíduo. Nessa perspectiva, toda e qualquer pessoa pode ser chamada de sujeito, haja vista que sua individualidade como pessoa singular faz com que ela já seja um sujeito. Para a psicanálise, o termo sujeito está colocado como um conceito, de modo que, em uma leitura estrita, um sujeito não é o mesmo que uma pessoa.

Quando falamos de sujeito em psicanálise, falamos de um ser sujeitado. Mais precisamente, o sujeito não tem substância, ele não é um corpo vivo, mas algo que deve ser convocado para se fazer aparecer.

Essa história começa com Freud, quando ele inventa uma teoria do inconsciente em que a principal contribuição é a descoberta do conceito de que não temos controle sobre todos os nossos atos, que o eu é apenas uma superfície que esconde um sujeito de desejo, que escapa e se mostra nos sonhos, lapsos e sintomas.

Quando alguém vai a um psicanalista, a pessoa se endereça com uma queixa, como alguém que sofr. Ela supõe que existe um saber sobre seu padecimento e endereça uma questão ao analista, supondo que ele saiba averiguá-la. Para escutar o sujeito do desejo, a repetição e, sobretudo, o sujeito do gozo, o analista deve fazer advir o sujeito do inconsciente.

A descoberta freudiana do inconsciente opera uma descontinuidade, uma excentricidade em relação ao eu. Questionar a existência de algo além do pensamento consciente torna a psicanálise uma das três maiores decepções da humanidade. Darwin, Freud e Copérnico retiraram o homem da noção egocêntrica. Lacan, a partir de Freud, criou todo um percurso teórico e conceitual, com o objetivo de estruturar um sujeito da psicanálise. A princípio, uma abordagem com o mundo da linguística leva Lacan a interpretar o simbólico pelo significante.
A psicanálise propõe a convocação de um sujeito do inconsciente, uma vez que há uma diferença entre o que se diz e o que se quer dizer.

Por outro lado, foi com seu texto O sonho do unicórnio que Serge Leclaire elaborou sua concepção do desejo inconsciente como ordem da letra, numa demonstração da psicanálise como uma prática da letra. A grande novidade introduzida por Leclaire, ao apresentar o caso de Phillipe para defender sua tese, não traz o relato de uma análise, nem uma biografia do paciente, mas um sonho em que a cifra do inconsciente é desvelada a partir de uma interpretação do analista, prova da primazia do significante. Isso pode ilustrar a ideia de Freud de que um sonho seja capaz de englobar toda uma análise, pois equivaleria a todo o conteúdo da neurose, e que “a interpretação completa deste sonho coincidirá com o término de toda a análise” (FREUD, 1912/1969, p. 123).

 

Quem sonha quando o eu está dormindo?

São significantes da nossa vida interior que se manifestam quando o eu está dormindo.

Então quem sonha quando o eu está dormindo?

São significantes que integram a atividade consciente, revelando o que está oculto, em segredo para o analisante. Às vezes, podem apresentar novos horizontes. Todas as imagens, os conteúdos e emoções que se manifestam quando o eu está dormindo; isto é, durante o sono, revelam uma rede de significantes inconscientes.

Quando o sonho é lembrado e narrado, é possível se interpretar a vida interior. As sensações fortes do sonho ainda quando o indivíduo não se lembra delas, ou se lembra de fragmentos, num sono picado, dão algumas pistas da vida inconsciente. Todos sonhamos sempre. O difícil é lembrar…

 

Que coisas nos contam os sonhos ?

Os sonhos falam da nossa interioridade; daquilo que ignoramos, mas também do nosso laço social. Como o grande outro impacta sobre a nossa vida. Nele se encontram pedaços individuais e coletivos. Os sonhos subjetivam o que é objetivo. O sonho é o nosso teatro noturno e, portanto, podem ser interpretados. Não são racionais ou lógicos, mas há uma linguagem cifrada de algo que não se dá a ver à consciência.

 

Duas pessoas diferentes, podem ter o mesmo sonho ?

Embora os temas possam ser comuns, a interpretação é subjetiva. As imagens que surgem são de amor, ódio, ira, raiva, mas cada um desses temas é conectado com a biografia daquela pessoa que sonha e tem relação com sua rede de relacionamentos.

 

Existem pesadelos ou sonhos positivos?

A distinção é entre sonhos subjetivos e sonhos universais. Nos primeiros, são representados sujeitos humanos: o analisante e as pessoas que conhece. Os segundos representam temas que correspondem a valores universais. Está é a distinção principal do sonho, porque há sonhos que interrompem o sono, como um pesadelo, por exemplo. Estes sonhos têm uma carga emocional forte que o analisante não consegue suportar e que o faz acordar. O pesadelo é uma espécie de sonho com um conteúdo de terror, que se conecta com algo pouco elaborado. Outros sonhos possuem, ao contrário, cenas familiares que não têm o poder de despertar o sonhador, pois são temas mais elaborados.

 

Quando os sonhos se tornam alarme do pior que está por vir?

Os sonhos podem ser premonitórios, como aqueles sonhados pelos judeus durante o período da ascensão do regime nazista antes da segunda guerra mundial, cujos conteúdos foram mensagens decifradas a posteriori. Suponhamos, por exemplo, que o analisante tenha um péssimo relacionamento com o pai e na vida desperta, que tenha uma ideia de um pai autoritário: pode ser que seja no sonho um pedido de ajuda do pai ! Qual é o significante? Certamente o pai tenta esconder o próprio lado débil e o analisante não tem consciência dessa vulnerabilidade. Neste sentido, ver o pai só no aspecto negativo, humaniza o pai e pode se recuperar uma relação com ele mais equilibrada, mai completa, menos unilateral. Por outro lado, pode haver uma relação totalmente pacífica entre um casal , mas no sonho o analisante vê a própria mulher como adúltera. Claramente não há um risco de adultério concreto, mas há um argumento de falta de confiança que, na vida, desperta o analisante não quer saber; isto pode ser um signo de alarme, o que o convida a se aprofundar mais no laço afetivo do casal.

 

É relevante compartilhar os próprios sonhos com os outros?

Geralmente, corre-se o risco de banalização e a banalização leva ao desprezo.

Em tempo de quarentena, o que aconteceu com os sonhos ?

Este momento é como um trauma contingente que mudou as nossas vidas. Nos sonhos atuais, emergem geralmente três temas. O primeiro é o sonho recorrente da perda de dentes, como se a agressividade se desativasse. A perda dos dentes é interpretada como perda da imagem, de não se ser mais íntegro. É, de qualquer forma, impotente e irrepresentável aos outros… A perda dos dentes não é um tema novo, pois se conecta com a perda da força primordial: nos dentes temos a primeira manifestação da nossa força. O segundo tema concerne aos sonhos com vermes e insetos, que na escala zoológica são formas de vida primitivas, sonhos de invasão. Existe uma crença coletiva de possuirmos dentro de nós uma compulsão para provocar danos. Há, por assim dizer, uma supressão imprevista do tempo. A terceira categoria ocorre nos sonhos de regressão, nos quais aparecem temas de relaçõesamorosas que não foram superadas. Trata-se de recuperar no passado o conteúdo da própria vida. Na impossibilidade de olhar o futuro, nos sonhos têm-se uma possibilidade de recuperar outras situações que se concluíram. E também há sonhos de esperança em que o foco são as novas possibilidades de vida.

 

Entre o lockdown e a fase 2, em que os sonhos mudaram ? Vinhetas clínicas!

Em tempos de quarentena, o inferno da insônia impera. É um momento de sonhos aterradores. F se lembra que está nadando no mar e se agarra dois pilares. A analista interpreta que esse significante pilar é como ele se sente perante a sua família depois que seu pai morreu.F é advogado, procurador do Estado inativo e professor de direito aposentado de uma instituição de ensino renomada em CWB. Aos 65 anos, casado e sem filhos, ele tem inquietações exageradas com a possibilidade de infecção do coronavírus, o que lhe tem provocado insônia recorrente com sono picado, que geralmente ocorre de madrugada por longos períodos. Possui grande capacidade de auto-observação e de autopercepção. Ao acordar à noite, sente-se tomado por uma rede de pensamentos e emoções a respeito de suas atividades profissionais, além de lembranças do dia, de temasa tratar e de problemas a resolver. Diz que sua mente é um arquivo de coisas, por onde passam, horas a fio, sensações, inquietações, imagens e memórias, com seus desdobramentos e produtos infindáveis.

F se sente assediado por esse universo que não lhe parece familiar, que o inquieta. Sua cabeça é um depósito de coisas, quinquilharias e problemasque não consegue se livrar. Têm vida própria, como um cavalo desembestado, cujo cavaleiro perdeu o domínio do animal Ele descobriu que isso se deve a um caos interior, que ocorre quando ele não tem claros propósitos do que fazer, por não saber verdadeiramente quem ele é, o que realmente quer e para onde deveria ir. Já pensou em se mudar de cidade, porque imagina que essa CWB lhe cria obstáculos para a fruição da vida. As dificuldades que enfrenta nas atividades intelectuais, diz ele, deixam-lhe vulnerável. Confessa que quando sofre de insônia sente-se muito dispersivo. Ele relata que acontece um rebuliço em sua mente e surgem pensamentos variados uns atrás dos outros, os quais, no dia seguinte, parecem insignificantes.
No momento em que ocorrem, causam a impressão de algo impactante somente porque se sente fraco e incapaz de resolver as dificuldades. Na verdade, os pensamentos que vêm aos borbotões na insônia estão repletos de dúvidas a seu próprio respeito, inclusive a dúvida mais comum sobre sua capacidade de voltar a dormir, de atravessar a terceira via do rio.
Acaba por criar descréditos não só em relação à retomada do sono, como também perante outras situações de sua vida, como, por exemplo, o trabalho intelectual. É como se estivesse hipnotizado por uma força paralisante muito mais poderosa do que ele e que o faz sentir-se impotente. Compara a ação dessa força a um pesadelo, em que ele grita e sua voz não é ouvida.Quando acorda, sobrevém-lhe uma terrível sensação de vazio. Essa força o domina somente quando não consegue despertar sua própria força. Já ocorreu de ele enfrentar essa coisa: é quando consegue organizar os temas de sua vida, em vez de sucumbir à angústia. Desse modo não se sente inoperante, nem impotente e percebe a desconexão com seu verdadeiro ser. Começa a fazer lentamente a distinção entre o que é ele próprio e a ação dessa coisa que o toma de assalto. Nos momentos em que se aproxima mais de si mesmo, ele tem uma forte experiência de vontade própria e os principais temas vitaisse encaixam emocionalmente no devido lugar. Em vez de inventar problemas sem solução por causa dos sentimentos de impotência, ele busca recursos e descobre sua força interior. A solução consiste parece ser em se sentir fálico.

 

Observações finais

A psicanálise se pergunta sobre o momento em que os oráculos se calaram na antiga Grécia , situando um efeito idêntico concernente ao inconsciente da época atual . Caído o discurso do amor clássico, v ivemos uma época em que são raras as formações do inconsciente , que se manifesta fundamentalmente como silêncio.

Outro sonho traumático de F é a falta de vergonha. O trauma é , antes de mais nada nada, um acontecimento imprevisto, insensato, que se instala a partir dos efeitos do sintoma e do gozo engendrados no corpo. O discurso atual produz a expropriação da vergonha diante do olhar do outro e oferece em troca , a satisfação deste dar a ver como espetacular, um gozo invertido e a vergonha ante o olhar do outro. Temos escândalos, justiça expressiva, shows vespertinos. Temos uma vergonha espetacular; uma vergonha administrada, uma vergonha de imitação.

Nos nossos sonhos, a nossa tendência é associarmos o sonho com o nosso modo de funcionamento. Nos sonhos somos os autores, atores e diretores das imagens oníricas produzidas por nós .

Vemos no sonho narrado, não somente uma demonstração da função da letra no inconsciente,. Também podemos consider-loá como uma ilustração da passagem do analisante ao analista. O analista é aquele que faz bom uso da letra e consegue esvaziar o significado e fazer cair a fantasia, o que faz com que o sujeito seja obrigado a confrontar o real de seu gozo. Quando o sujeito não usa mais sua fantasia, ele pode finalmente ter outra relação com seu sintoma. Essa queda abre as portas para a possibilidade da introdução do novo, da ordem da inventividade. Essa clínica convida os analistas a se orientarem pelo real.

Notas:
“Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo”. “Vou, se não dobro o céu, mover o inferno!”
Alighieri, Dante. Divina Comedia (tradutor: N. González Ruíz). In: Obras Completas de Dante Alighieri, Madrid: La Editorial Católica, 1965
Echave-Sustaeta, Javier de. Virgilio Eneida, Madrid: Editorial Gredos, 1992

Freud, Sigmund. La interpretación de los sueños (tradutor: Luis López), 1971. Freud, Sigmund. Nuevas aportaciones a la interpretación de los sueños,
Madrid: Alianza Editorial, 1972
Freud, Sigmund. Cartas a Wilhelm Fliess (1987-1904)(tradutor: J.L. Etcheverry). Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1994
Freud, Sigmund. O manejo da interpretação de sonhos na psicanálise (1912). In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Volume XII. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
Leclaire, Serge. L’inconscient; une étude psychanalytique. In: L’inconscient – VIème Colloque de Bonneval. Paris: Desclée de Brouwer, 1966.

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