Cart

Antes que o dia nos sufoque: um diálogo com Naharia, de Guilherme Gontijo Flores

Por Gustavo Silveira Ribeiro

[Primeira parte do texto que escrevi sobre Todos os nomes que talvez tivéssemos, tetralogia do poeta e tradutor Guilherme Gontijo Flores. Naharia (Kotter Editorial)objeto desses primeiros parágrafos, é o último livro da série.]

PREFÁCIO

I

[antes que o dia nos sufoque] 

O poema-livro que aqui está é feito como uma armadilha, uma sutil aporia: em sua tessitura, o texto tenta reter os restos de uma voz que se dispersa, alimentando-se dela e dela se despedindo, de certo modo; mesmo sabendo impossível paralisar o turbilhão do mundo, lança-se à tarefa de suspender o tempo, interpelar o instante e fixar dele (o agora, momento fugidio) um retrato possível, clarão mínimo: lâmpada da memória, naharia, réstia de luz que se projeta sobre o legado de uma vida e o expande, revendo a si, as coisas ao redor, o que existe e o que nunca existiu, com olhos turvos, melancólicos. O passado é denso e a voz que se espalha no texto – costurando o longo poema narrativo que Guilherme Gontijo Flores entrega neste momento aos seus leitores – sabe (sem saber claramente) que à melancolia cabe também força e ânimo, isto é, vigor e alguma alegria. E é por isso que se desprende tanta energia dessas páginas, tanta intensidade das histórias sempre incompletas e interrompidas que a personagem, uma senhora que passeia pelo bairro familiar, entre a casa e o mercado de compras, conta àquele que a acompanha – um ouvinte jovem e atento, alguém que carinhosamente a segue em silêncio (um neto, quem sabe?), acompanhando o continuum das suas palavras.

O início do poema é como um destravar da língua, uma máquina que se põe em movimento: surpreendidos em pleno ato, in media res, tudo nasce de um sim. Gesto afirmativo (e por isso mesmo violento, instaurador, aberto e oferecendo-se ao desconhecido), a torrente de imagens se desprende e o discurso surge como fluxo, jorro incontrolável: algo próximo, talvez, ao que se assiste no Poema sujo, de Ferreira Gullar, onde o fio da lembrança é, em princípio, insignificante como uma trilha de formigas que escorre pelo vão do assoalho, mas de repente se abre imenso ao passado, outra vida, à infância, ao corpo, às experiências formativas e às inúteis, ao que a vida tem de essencial e ao que nela é puro gasto, desimportância. Sem a mesma urgência, no entanto, do texto fatalmente político de Gullar, mas de igual modo uma reflexão sobre a finitude e a intensidade, Naharia opera por montagem e sobreposição, articulando as muitas vozes e os múltiplos sentidos que se abrigam na voz da personagem sem os ordenar em excesso, sem os submeter a uma direção unívoca e clara. A sintaxe partida do poema, seus retalhos de textos alheios, os saltos que o atravessam, a modulação de assuntos, linguagens e mesmo formas gráficas (o autor usa muito habilmente o itálicoe a CAIXA ALTA para marcar os ritmos e as alternâncias do discurso lírico) preservam em medida justa a dispersão que orienta, incontornavelmente, um mergulho no tempo como o que aqui vai, além de ser também o modo natural de uma conversa qualquer, um encontro desarmado com alguém que se ama. Algo do monólogo final de Molly Bloom, de Ulisses, de James Joyce, ecoa no texto, afinal: não é mais uma Penélope quem desfia os seus desgostos, certamente, mas alguma coisa afirmativa e sensual, intrincada e circular percorre o tecido do poema, sua explosão verbal, dando ao texto um sentido de reinscrição de mitos e narrativas arcaicas. Algo como uma poética da leitura se esboça também aqui, como ocorre no romance de Joyce, na medida em que diversas passagens da Odisseia homérica, do Ulisses e de outros livros e autores (João Guimarães Rosa, T. S. Eliot, Carlos Drummond de Andrade, Dante Alighieri) aparecem em Naharia, misturados, confundidos, traduzidos na linguagem com que se faz o livro, às vezes um amontoado de cacos e ecos e retalhos de outros tempos, outras textualidades.

No centro de tudo o que Naharia põe a descoberto, entre as “voltas infindas da fala” parece haver uma casa, presença-ausência fantasmática, verdadeiro símile das estruturas profundas do livro. A casa na qual os personagens transitam no presente do texto recorda uma outra, inapreensível, irrecuperável – “é a casa que fica na memória/onde habitamos mais a cada dia”: é nela que de fato os afetos se concentram; do mesmo modo, a infância, a convivência com os irmãos e filhos, as asperezas do casamento parecem se fazer notar com mais força na sua falta, isto é, não nas marcas que possivelmente deixaram, mas na possibilidade do que podiam ter sido, na hipótese que ainda são, potências de uma vida que, mesmo passada, parece não ter se esgotado ainda: “o pai que nunca houve/ daquele filho que não nasceu”. O caráter espectral do tempo parece vital ao texto, espécie de motor que o movimenta: o passado não cessa de retornar à consciência e ao presente, invadindo a vida, fazendo do discurso-poema, em certo sentido, uma espécie de diálogo com os mortos: a intempestividade que o caracteriza não é a da invocação dos que se foram, num ritual de chamado e controle relativo de sua presença (fugaz) entre nós; ao contrário, eles, os mortos, é que dão as cartas, ocupando o espaço do coração e fazendo-se corpo, lembrança palpável que dá substância à própria ausência, uma vez que a sensação ilusória de sua realidade no mundo dos vivos mais destaca a falta que fazem do que a ameniza ou conjura: “teu silêncio me acompanhava/nos cantos da casa em que não estava”.

A velhice, neste livro, é o território da despossessão. Se a fragilidade física e o comedimento normalmente associados à maturidade não parecem ter lugar no poema, uma sensação permanente de exílio se apresenta como traço fundamental, condição incontornável dos que já não vivem num tempo que lhes pertence. A infância, mais que a juventude, é a sua pátria perdida, e tudo o que se experimenta no presente é índice negativo de falta e distância, algo como uma impostura qualquer: o gosto da água, a acidez da laranja não são as mesmas e soam puro artifício diante dos sabores provados; o mesmo ocorre com as paisagens da memória, o mapa mental e afetivo da casa, do seu oco habitável e tão familiar que agora, por mais antiga seja a vivência em seu interior, não se apresenta como as da vida de criança. Não há resignação nem nostalgia paralisante em Naharia, é bom que se diga – e as muitas fotos que atravessam o texto revelam isso, para além de abrirem-se também a inúmeros outros sentidos. Em parte, é possível dizer, elas vão se opor (junto às palavras) à “noite imensa do esquecimento” , treva total, risco de aniquilação do vivido. A meditação sobre o tempo e a velhice que se dá através delas e nos versos do poema-diálogo (do drama-poesia, para lembrar aqui Maria Gabriela Llansol) se aproxima mais, quem sabe?, daquilo que Jean Améry, filósofo e escritor alemão, propôs sobre o tema (em Über das Altern, 1968): o envelhecimento é uma forma de estranhamento de si e desertificação do mundo, um modo violento de aprender a viver morrendo, de viver com a morte dentro de si, deflagrada e próxima.

*Resenha publicada originalmente no blog Toda a Orfandade do Mundo no dia 17 de novembro de 2017. Disponível em: https://espantalhosdesamparados.wordpress.com/2017/11/17/naharia-guilherme-gontijo-flores/

*Gustavo Silveira Ribeiro atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira.

*Guilherme Gontijo Flores nasceu em Brasília em 1984, é poeta, tradutor e leciona latim na UFPR. Estreou com os poemas de Brasa Enganosa em 2013, finalista do Portugal Telecom. Seu livro mais recente lançado pela Kotter Editorial, Naharia, foi finalista do Prêmio Jabuti 2018 na categoria Poesia. 

*Naharia, de Guilherme Gontijo Flores, está disponível na loja on-line da Kotter Editorial em https://kotter.com.br/loja/naharia/

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