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Areias de um Coliseu Tropical

(Por Rodrigo Oliveira)

Quando adentrei este Coliseu Tropical, achei que pisava as areias de uma arena. Quando saí, percebi que eram as areias de uma ampulheta.

Coliseu Tropical é o mais recente livro de Viegas Fernandes da Costa. Traz a mesma prosa poética comum aos trabalhos anteriores do autor, na maioria das vezes abrindo mão dos versos. A obra conta com um interessante trabalho gráfico da Editora Kotter, mas o ponto frágil fica por conta de escolhas de diagramação e soluções de tipografia que provavelmente passaram pela revisão, e “arranharam” um pouco a estética do miolo do livro. A bonita capa e o projeto gráfico compensam em parte estes — na visão deste leitor — deslizes. Mas tirando uns poucos momentos de quebra na imersão da leitura, o texto não chega a sofrer muito com isso.

O livro é uma obra sem dúvida atual e se propõe a combater (n)o seu tempo. Mas esse Coliseu que digladia com seu presente, ganha mais vida quando se entrega às reminiscências. Como no antigo palco romano, é por baixo da luta que se escondem as engrenagens e a riqueza que sustenta a arena.

A obra inicia agressiva com o tom crítico que parece guiar o livro, apontando ora os desgovernos que regem este conturbado 2021, ora as desigualdades que (já não) nos surpreendem em cada esquina, apontando chagas ou ideias incinerados sob uma lua de fogo.

Deste primeiro grupo de textos destaco justamente o tocante Lua de Fogo com as cinzas de um Pantanal ardente, e o sensível O Coveiro, que exuma a poesia do menino que sonhava “plantar pessoas na terra”. Apesar do lirismo, mesmo nestas peças o tom crítico e o olhar contemporâneo é presente. A partir da metade do livro, no entanto, ainda que o eco deste tom inicial frequentemente se faça ouvido, Coliseu Tropical tende a se voltar mais para dentro, e a obra parece crescer.

Reflexo de paisagens do Vale e do Litoral Catarinense, sótãos e velhas máquinas de escrever tomam as areias deste Coliseu, lembrando as areias que correm em uma ampulheta. “A memória”, diz o autor, “é, de algum modo, a falta que se faz presente”. E ela se faz presente em aforismos, poucos versos e na lembrança de personagens conhecidos daqueles que acompanham a obra do autor, como Ernesto ou o Onitorrinco, que aparecem “como barco insepulto ancorado na areia de um deserto que já fora mar”.

Como o homem de areia que dá título a um dos textos, é das areias que se ergue este Coliseu Tropical. Mas como o personagem, não cabe na ampulheta e vê a poesia nascida dos intestinos do mundo enquanto todos a buscavam na paisagem do horizonte. Viegas encontra poesia na paisagem da memória antes que ela, inevitavelmente, se dissolva no vazio. Como o homem de areia.

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