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Alguma coisa pode acontecer e atrapalhar o sono, tornar a noite um pesadelo.

Quem, em viagem a trabalho, já precisou dividir o mesmo quarto da hospedagem com colega ou colegas, por contenção de gastos da empresa.

Foi assim, naquela ilha de luzes e sombras, após 18 horas de trabalho, comida improvisada e o último gole, que aconteceu o acontecido.

No quarto da pousada, duas camas separadas, alguns passos além da minha, a porta, disposta na outra face, a janela, localizada um pouco à frente da cama do colega.

Digo que tomarei banho primeiro para me livrar do dia. Cama posta, sono batendo, tudo na normalidade, até que o improvável surgirá sem convite.

Há de ressaltar que fazia calor, a lua clareava a noite e o sono precisava bater.
Fecho os olhos, estou coberto, torcendo que logo chegue o dia para que possamos dar fim ao trabalho, que se arrastou por três dias.

Nada de novo no front, luzes apagadas, a noite brilhando, o silêncio da ilha, grilos, cigarras, sapos e seja lá o que for, fazendo a sinfonia noturna.

Estou deitado, olhando para o teto, sei que logo apagarei, as últimas doses de vodca me diziam isso.

Após alguns minutos percebo que o colega levanta e vai até a janela, espia, retorna para a cama.

Em menos de dois minutos, lá está, novamente na fresta da cortina. Parece falar comigo. Não respondo.

Deita em sua cama, fala baixinho agora, parece estar aflito. Um papo sem nexo, penso que pode estar brincando.

– O que foi?

Ele responde algo desconexo, “alguém está vindo”, “alguém está perseguindo”, “tem alguém lá fora”, algo assim, segue até a janela e retorna.

Perseguidor? Seria ele um sonâmbulo? Nas noites passadas parecia normal. Será que a bebida bateu errado? Misturou remédios? A minha vodca não estava batizada, acho eu?
Então ele resolve andar em passos lentos, sussurra, vai até a porta, olha, abaixa, levanta, percebo seus movimentos. Fecho os olhos, vai que ele consegue enxergar no escuro.

Isso começa a me incomodar.

Já deitado, penso ouvir ele dizer, “você verá!”

Sei lá, parece achar realmente que tem alguém na porta, na janela, no chão do quarto, nas cortinas, no abajur, na cômoda, embaixo da lua, no banheiro, no canto florido do caminho que dá para o quarto…a maldição da ilha, seria isso? Talvez ele esqueceu de me oferecer o barato.

Porra! Quero dormir, penso, não digo nada, não devo alarmá-lo, vai saber por onde anda o pensamento do rapaz. Mantenho a calma, ele continua a sua louca jornada.

Minha irritação só piora com a sua movimentação, resolvo simular uma respiração forte enquanto ele caminha de lá para cá, da janela para a porta, da porta para o banheiro.

Paranoico da porra! Não digo, penso.

Então me vem a grande ideia, começo a roncar, fingindo, é claro. Ronco sem parar, mas não durmo.

Depois disso, parece acalmar, sei lá, talvez passou o efeito, acordou do transe, sonambulismo, seja lá o que foi aquilo.

O troço deveria ser bom, ou melhor, acho que não, uma bad trip danada.

Lá pelas tantas a noite engoliu o rapaz, dormiu.

Aguardei mais um pouco, percebi que apagou, nem sinal de algo lá fora.

Levantamos cedo, sem dar um pio, nada foi dito, o trabalho foi feito, a ilha ajudou, desmontamos o set,  esfarelou-se o tempo, voltamos para casa na primeira embarcação.

Poderia ter dado uma de psicólogo, ter falado com o moço, tentado acalmá-lo, compreender com quem conversava, mas não quis, não daria pé. Ficou em seu pesadelo pessoal, com os amigos imaginários.

Não havia mesmo nada a fazer, também nada atrás da porta, muito menos próximo das janelas, apenas a noite, calada e misteriosa.

Não dormi, só ronquei.


Fabio Santiago nasceu em Maceió (AL), em 1973, e está radicado em Curitiba (PR). Publicou os livros A marca do vampiro (compre aqui, 2023), Cantos temporais e Mar de sombras, ambos em 2022, Versos magros (2021) e Intramuros (2020). É formado em Comunicação Social e criador do blog Acre infuso, ativo desde 2004.

Redes sociais: @fsantiago006 (Instagram) e Fabio Santiagoc (Facebook)

Uma resposta

  1. Querido autor, um misto de emoções me tomou durante a leitura de sua crônica. Mistério, humor, o cotidiano inesperado, o cansaço. A crônica é ótima, parabéns! Um beijo

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