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Brincadeira séria 

(por Martina Ahlert)

 

“Brincadeira” é um termo utilizado para falar sobre festejos, folguedos e danças populares em diferentes partes do Brasil. Fala-se dela no Maracatu da zona da mata pernambucana, no Cavalo Marinho ou ainda no Tambor de Crioula. No Maranhão, brincadeira é também uma maneira de denominar as religiões afro-brasileiras ou de matriz africana como o terecô, o tambor de mina e a pajelança. O terecô, religião de provável origem banto, encontrada, especialmente, no interior do estado, possui entre suas diferentes denominações a de “Brincadeira de Santa Bárbara”.  

Santa Bárbara nomeia a brincadeira, pois é ela quem chefia a Encantaria Maranhense. Encantados são as entidades recebidas por intermédio da incorporação por aqueles que participam dessas religiões. Eles são seres mais que humanos que, tendo vivido na terra, desapareceram, passando a habitar a Encantaria, um entre mundo ou dimensão diferenciada da experiência. Além da incorporação, os encantados indicam suas presenças por intermédio de sensações corpóreas, pelo manuseio de objetos ou por manifestações em sonhos.   

Foi no interior do Maranhão, estudando o terecô, que ouvi ser a religião uma “brincadeira séria”. Encantoria é um livro sobre essa brincadeira, em especial sobre a relação entre os encantados e as pessoas que os recebem, chamadas de “brincantes” ou “terecozeiras”. As situações descritas na obra fazem parte de uma pesquisa que iniciou em 2010 e continuou nos anos subsequentes, tornando-se minha tese de doutorado em Antropologia Social na Universidade de Brasília. Ela foi realizada no município maranhense de Codó, localizado na região leste do estado, mais próximo a Teresina do que à capital maranhense, São Luís.   

Em Codó, o terecô se organiza por intermédio das tendas de pais e mães de santo (ou mestres) e é percebido como a religião tradicional da cidade, remetendo ao período da escravidão e à presença negra na região. A forma que possui atualmente é resultado de um processo histórico marcado por encontros com a umbanda e o candomblé, além de uma relação de proximidade com o tambor de mina. Esses encontros se refletem na miríade de seres que podem compor a “corrente” de um brincante ou de uma tenda.   

A expressão brincadeira séria pode parecer, a primeira vista, contraditória. Por um lado, a brincadeira ganha toda sua força nas roupas confeccionadas para as festas, nas bandeiras coloridas que adornam os salões ou tendas religiosas, na abundância de comida feita para receber visitantes, na alegria do cumprimento das promessas outrora realizadas, na jocosidade e no clima lúdico que emana dos festejos em homenagens aos santos, orixás e encantados. A seriedade, por outro lado, indica para o fato de que a relação com os encantados envolve compromissos delicados e fortes, relacionados aos mais diversos aspectos da existência, como o corpo, a saúde e a família.  

Os brincantes, não raro, perceberam os primeiros sinais de sua mediunidade (ou seja, da presença das entidades em sua vida) ainda na infância, por intermédio de diversos sinais, muitos dos quais são associados, inicialmente, a alguma doença. A partir de um primeiro diagnóstico, decisões são tomadas para lidar com a presença dos encantados e é comum “suspender as correntes” até o cavalo (aquele que recebe os encantados) estar um pouco mais velho e poder assumir a responsabilidade de “carregar” uma entidade. Mas, essas decisões estão sujeitas a diversas variáveis, inclusive à agência desses seres mais que humanos. Em alguns casos, eles são novidade e envolvem uma nova disposição das pessoas envolvidas. Em outros, são conhecidos e herdados de gerações anteriores, marcando sua presença nas famílias por muitos anos.    

Contar com ou trabalhar com os encantados exige engajamento – um investimento constante no cuidado e no fortalecimento das relações. Não se trata de uma rede de trocas marcada por equivalências claras e acordos no melhor estilo ocidental de contrato. Menos ainda em uma disposição individual que enseja uma ajuda nos momentos de maior ou menor dificuldade. A religião não é, nesses casos, assunto de conversão ou adesão, muito menos de convenção e conforto – elementos que surgem em certas apropriações exógenas das experiências desse contexto.  

Os encantados habitam a vida como um todo, constituem-na, dela participam. Eles não ficam restritos a uma dimensão apartada das outras experiências, circunscritos ao que poderia ser definido como religião no sentido estrito do termo. Eles compõem, nesse sentido, redes de parentesco e compadrio (quando chamados para serem padrinhos ou madrinhas, por exemplo); agem na resolução de conflitos com a vizinhança; protegem os corpos, são fonte de ajuda em dificuldades financeiras e, especialmente, agentes de cura para infortúnios e aflições diversas.   

A brincadeira séria, antes de uma contradição, é uma rica composição. Ela indica que entre as pessoas e os encantados se estabelece uma relação de coexistência. Coexistir implica compromissos diversos. Quando os encantados se apresentam a uma pessoa, não raro ela não deseja desenvolver a relação com eles, pois se compreende que ser da religião “dá muito trabalho” e é “muito pesado”. Entretanto, ao mesmo tempo, ter encantado se torna uma fonte de energia, uma companhia, uma alegria.   

Se hoje nós podemos falar sobre religiões como o terecô, chamando atenção para a seriedade e a sofisticação presente em suas experiências, é importante mencionar sua trajetória. Tanto quando consideramos seu percurso histórico quanto quando as pensamos no momento atual, as religiões afro-brasileiras ou de matriz africana não são livres de abordagens discriminatórias. O terecô foi perseguido por muitos anos e teve suas atividades cerceadas e mesmo impossibilitadas. As narrativas contam da proibição oficial dos rituais em que se tocavam tambores.  

Nesses períodos, os brincantes utilizavam estratégias para permanecerem invisíveis aos olhos da polícia e dos fazendeiros, deslocando-se à noite, fazendo rituais nas matas e roças, andando acompanhados por poucas pessoas. Nem sempre essas medidas eram suficientes; contam-se diversas histórias sobre a descoberta dos rituais. Não raro, são histórias também sobre a forma como o poder de pais e mães de santo se impunha sobre os perseguidores – que “caiam”, ou seja, dançavam eles mesmos sob a influência das entidades.    

Atualmente, as práticas religiosas afro-brasileiras continuam cerceadas de diversas formas, ainda que em moldes um pouco distintos. Na pesquisa de campo acompanhei situações de intolerância presentes em afirmações de pessoas de outras religiões, também ouvi histórias de pessoas que perderam emprego por serem “do santo” ou que eram associadas a termos estigmatizadores como “magia negra”.  Em diversos momentos, a religião era associada a questões raciais e de classe em explicações empobrecedoras e limitadas das experiências dos terecozeiros. 

Apesar desse longo (e contínuo) processo de discriminação racial e intolerância religiosa vivido pelos brincantes, eles continuam trabalhando ativamente com seus encantados: fazendo garrafadas e banhos de cura, mobilizando rezas e ladainhas, tocando tambores e ouvindo conselhos, dançando, cantando e fazendo sua brincadeira séria. A despeito de todas as forças contrárias – a ausência de dinheiro, as situações de doença, as adversidades que se impõem sobre a produção da roça e da quebra de coco, os preconceitos – os festejos são mantidos com o “orgulho de não ter faltado nenhum ano”, nem mesmo quando havia possibilidade apenas de comprar uma vela e servir café aos visitantes.  

Se a condição do ano for melhor, entretanto, não se mede esforços para comprar metros e metros de tecido para as saias rodadas tão do gosto das entidades; para decorar cada ponto das tendas e, se possível, pintar suas paredes com cores novas; para soltar foguetes anunciando o festejo e dando salvas à presença dos encantados. Parte essencial é ainda receber muitos visitantes, contar com sua “força” (e de suas entidades) dentro dos salões, renovar alianças, fazer existir o terecô.  

Das experiências mais moleculares e cotidianas até os festejos programados e ansiosamente aguardados, os encantados se fazem presentes na vida dos terecozeiros. A relação com eles é uma forma de perceber a vida como algo compartilhado com esses seres. Tomo a liberdade de sugerir que não apenas a religião é uma “brincadeira séria”, sendo essa uma chave para pensar a vida em si mesma. No momento em que vivemos, talvez possamos fazer esse termo vazar de seu contexto, explodir em outros sentidos e aprender com quem é mestre a manter seriedade e alegria como companheiras uma da outra.  

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