Cart

Cancílio da Exanção – Crônica de Eugênio Vinci de Moraes

por Eugênio Vinci de Moraes 

Enquanto o ar cospe leões desdentados, beletristas carregados na brilhantina assumem os destinos da republicareta tupiniquim. Guias  desmusculados marcham, chapadões, no planalto central. Há uma manada raivosa na loja de louças da democracia brazuca. Mergulhou-se no exílio mental.

A cada dia pingam uma nova gota lisérgica em nossa água. A última nos levou a testemunhar o rei da mesóclise do Alto de Pinheiros “salvar” a trágico-pátria-brasil. Foi demais. Mas fiquem tranquilos. Poupá-los-ei de mais um sonho medonho.

Queria mesmo era escutar o sabiá sem ouvir a enjoada voz do Luan Santana et falange. Cismar à noite sem ser interrompido pelos posts criptografados do Zero Três. Contemplar jerivás, açaís, buritis sem topar com o salaz Ricardo Salles calcinando-os sem pesar. Não quero morrer antes de meu hipocampo rever os gaturamos da Califórnia comendo carambolas nos pinheiros-do-paraná.

Para barrar essa bad trip, viajar uma viagem que valha a existência, é preciso encontrar brechas na pandemia. Rever praças, paços, bancos e botecos. Contemplar a banda de pedestres aleatória passar pelas ruas de Curitiba, contrariar o Trevisan ao expiar todos os castigos e chapinhar na água sulfurosa do rio Belém. Lançar a rede e apanhar um grito de vida e voltar pra onde tudo é belo, como escreveu o Drummond.

Em cada caco de esquina há um sabiá. No tabuleiro do camelô da praça Rui Barbosa, se olhar bem, vendem-se pepitas do amor popular. Na parada do ônibus, no Guadalupe, há um boy trocando olhares com a Gioconda do Pilarzinho, indiferentes ao sururu dos menó com a desguarda municipal. Os vendedores de bala circum-navegam as praças Osório, Santos Andrade e Largo da Ordem, catam as moedas dos concidadãos, e compõem a valsa das suas penas em partituras de piche e pedra.

Da minha parte, bateu uma saudade danada de voltar a falar mal do Coxa com o guardador de carros da Saldanha Marinho, de conversar com o Calil do Armazém Califórnia, dar um salve pro preto fininho e elegante que me chama de professor e dá um trato nos carros na margem da trincheira da Nestor de Castro, fender o calçadão da XV desde a Osório até a Santos de Andrade, entrar no Sebo Kapricho e encontrar aquele livro que não procurava, escanear Curitiba pela janela do Bracatinga, sentar no Mãe e ser acolhido pelos sorrisos da Anne e da Ieda, pregar os glúteos na cadeira bamba do Vendas, colado ao MON, e rasgar a língua com a Bel, a Adriana, e o Tonico – chamar a Vilma, a Rita e a Gisele pra entrar nessa roda –, botar pra correr os fascistas da hora com os resistentes Vivianne e Sálvio e, assim-sendo-doravante-daqui-por-diante-sem-mais-tardar, escapar por algumas horas dessa patética peça psicodélica que nos pregaram.

Ah, e não deixem que eu morra antes que volte para os meus.

 

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