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COLISEU TROPICAL

(Por Elaine Tavares)

Quem escreve sabe: narrar é sangrar. Ainda mais nesses tempos de medo e solidão. É impossível não rasgar a carne da vida e deixar que as vísceras apareçam, afinal, é nelas que mora o futuro. E esse é o caminho percorrido pelo escritor blumenauense no seu livro Coliseu Tropical. Já no primeiro texto colocamos o pé na realidade sem retoques, a morte do pobre, a dor, o abandono, as pinceladas de um cenário que beira o mágico, ainda que dolorosamente real. Os textos são curtos, incisivos, diretos. A barbárie de um tempo duro que só parece tocar o outro quando apresentada como ficção.

Viegas apresenta o Brasil, esse, que vimos nas páginas policiais como se fosse culpa das vítimas, a partir de olhos amantes, comprometido, abigarrado. Um país atravessado pela dependência e o subdesenvolvimento, a outra cara da riqueza dos países de cima. Viegas apresenta Desterro, essa terra que escolheu para viver e evoca os ventos que sopram memórias de baleias e de canoas de pau. Esgrime as palavras como a bailarina no trapézio. Traz em cada frase a delicadeza, a força, o mais profundo amor pela vida.

O livro anatomiza o corpo dilacerado da vida brasileira, mas não é um livro triste. Sim, às vezes faz chorar, mas é por puro assombramento, por tamanha grandeza, por tanta riqueza na construção de cada parágrafo. A palavra constituindo o nosso mundo que é feio sim, mas também cheio de belezas. Viegas não doura a pílula, extravasa angústias e sopra esperanças: “apesar desses tempos tristes, meus olhos acreditam no horizonte. A história ensina que os tempos serão outros. A história ensina que o mar já desaguou em abismos, antes de lamber nossas praias”. Ah, que vontade de seguir!

No Coliseu do Viegas se digladiam as letras, os contos, aforismas, as vidas, os sonhos, e o eterno desejo humano de ser feliz. Mas, nessa luta titânica ninguém morre. Não. O que essas lutas nos cobram é coragem, como diz o sertanejo de Guimarães. E a gente chega ao fim desse livro intenso com o peito estufado de tanta belezura.

Vale a pena percorrer esse caminho do coliseu tropical, acompanhando o traçado de Viegas: “Tu eras bonito. Tinhas o sonho balançando nos olhos como um barco de pesca em alto mar”.

Assim somos. Bonitos e carregados desses sonhos balanceiros. Vamos vencer!

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