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Coluna – Carnívoros│Beijo ou cabeçada

por Bruno Nogueira

Sol infernal, pai e filho se afastam do mar no Arraial D’ajuda, os pés molhados se empanando aos poucos na areia conforme caminham até a mesa do quiosque. O filho se senta logo, enquanto o pai pede uma porção de camarão frito e volta com uma cerveja gelada e dois copos esbranquiçados, que põe à frente do garoto de 16 e enche com cuidado, pra evitar colarinho. O filho, a essa altura já de óculos e camiseta (fica desconfortável sem camisa em público), não gosta de cerveja, mas sabe que não adianta dizer não — diz o pai que mais cedo ou mais tarde ele começa a beber e é melhor aprender agora, com o pai do lado.

Gabriel. Você riu quando eu falei mas é sério.

O quê, pai?

É sério o que eu falei. Tem que mentir mesmo.

Não faz essa cara Gabriel, eu sei do que eu tô falando. Se você quiser pegar, tem que mentir. Fala que você é médico, que tem um helicóptero, fala o que precisar.

O pai vira o primeiro copo. A bebida é mais refrescante que o mergulho no mar morno e salpicado de banhistas do carnaval de porto.

Eu não consigo ser cara de pau assim pai.

Gabriel, acorda. Essas meninas daqui não são menos, não são a garota que você tá a fim no colégio nem nada. Arrisca você pegar alguma só por conta da Gucci e do telefone que eu te dei, e inclusive fica esperto, se não uma vem, pega você, e enquanto você estiver distraído ela leva seu telefone e você nem viu. Deixa ele no bolso da frente, tenta pegar sem muita conversa e se a mina perguntar fala que tá no primeiro semestre de medicina e que amanhã leva ela pra passear no helicóptero.

Mas pai, como eu vou levar ela depois se

Não existe depois, Gabriel. Se ela ficar sabendo depois, já era, já comeu. E se existisse a porra do helicóptero eu não precisava falar nada que você já tava nadando em buceta.

Gabriel fica calado, esfregando os pés um no outro pra tirar a areia grudada que parece não incomodar o pai. Dá uma golada na cerveja, tentando justificar o silêncio e usar o desgosto amargo da bebida pra encobrir o desconforto da conversa. O pai olha pra ele de um jeito fixo, incômodo. Como sempre, sua postura é calculada pra barriga parecer menor e os pêlos do corpo são todos pintados. Seu olhar é o mesmo que dirige ao motor do carro quando leva no mecânico: uma mistura de desconhecimento e certeza.

Gabriel. Você sabe que eu te amo. Não te quero sentindo mal. Mas você não é o cara mais bonito do mundo, você tem consciência disso. Eu quero você curtindo o carnaval, perdendo esse cabaço, pegando mulher, e você tem que lembrar que ninguém aqui vai ser a mulher da sua vida não, aqui não tem santa: a maioria vai pular no seu colo se achar que você tem grana e é alvo fácil, vai falar e fazer tudo pra te agradar se você tiver dinheiro. Não é como se elas fossem nobres também.

Mas pai, mesmo que eu quisesse eu fico sem graça, eu fico pensando nesses caras que chegam na Babi e

Filho, isso de “sem graça” não existe, todo mundo começa assim, você muda aos poucos, aprende tentando. Agora a sua irmã é outro caso.

Gabriel olha pro copo que ainda está acima da metade, e continua esfregando os pés um no outro. Não sabe dizer que expressão facial fez, mas o olhar do pai deixa claro que ele não gostou.

Porra… Filho, você lembra do Janjão?

Janjão? Gabriel quase ri.

É, o que trabalhou comigo uns dois anos, que faleceu de câncer.

Sei.

Pois é. Eu tinha ficado amigo dele, você lembra de ver ele lá em casa. 23 anos, um ano inteiro preso na cama do hospital — e talvez se tivessem amarrado ele numa pedra e jogado nesse mar ele sofria menos. Moleque trabalhador pra caralho, vestia a camisa, ficava até tarde. Caiu de cama solteiro e morreu sem deixar nada pra trás.

Eu lembro.

Naquele ano a sua irmã tinha a idade que você tem agora, e eu fiz com ela a mesma coisa que tô fazendo com você hoje. Eu sabia que ela andava vendo um carinha aí, aquele japonês que ela namorou uns meses e tal. Mas eu arrastei ela pra tomar uma comigo e falei: filha, curte a vida, pega homem, pega mulher, bebe, cheira, transa pra caralho, transa o tanto que puder — mas não acredita em homem nenhum nem acredita em sapata, em ninguém que quiser te pegar, porque esse povo mente, todo mundo mente, eu minto, e eu conheço muito falso e muita falsa por aí. E eu te falo o mesmo filho, mas seu caso é outro: não vai pular mulher em você feito os caras juntam na Babi. No seu caso o mentiroso tem que ser você, entende? Você

Gabriel é salvo da obrigação de responder quando o pai percebe o sinal do garçom do quiosque e pula pra buscar o camarão frito, aproveitando pra pedir outra cerveja. Só agora seus pés começam a se livrar da areia grudada, mas ele não parece se incomodar, e o pouco que cai é o que secou naturalmente.

A praia em que estão fica à ponta de um bar que está cheio, como tudo ali nessa época, e o quiosque em si é dos mesmos donos. Chega a ser difícil atravessar o mar de gente que dança ao som de uma banda de axé sem nome, num palco de pé no meio do espaço vazio ao centro do bar, com um equipamento de som que trovoa tanto na direção da entrada quanto na do oceano. Os vocalistas da banda de axé cantam voltados para a parte interna do bar, assim como um dançarino e uma dançarina, enquanto outros três, duas mulheres e um homem, dançam virados na direção oposta, onde não há gente acumulada e de onde recebem olhares ocasionais, enquanto olham, eretos, pro mar, com um sorriso profissional no rosto. Mesmo ali, na areia, as mesas dos quiosques todas ocupadas, muitos estão com toalhas mantidas no lugar por coolers e garrafas de cerveja, e são tantas as cabeças e troncos no mar que só conseguem nadar de fato os poucos que estão mais afastados do litoral.

Quando o pai volta, Gabriel está observando o público que dança frente ao palco. A maioria está em roupa de banho, mas transpira no calor. Muitos sabem de cor a coreografia do axé, e dançam com a sincronia imperfeita de uma revoada, enquanto outros são tão acostumados a seguir os passos que seus corpos reagem instantaneamente, o atraso em seus movimentos tão pequeno que é impossível perceber sem um olhar atento. Ocasionalmente os corpos se tocam; na maioria dos casos nada acontece, mas às vezes surgem sorrisos ou expressões raivosas.No lado mais deserto do palco, o pai vê algumas adolescentes de uns 14 anos dançando, acompanhando os dançarinos no palco. Ocasionalmente o dançarino dirige a uma delas um olhar intenso. Não é de surpreender. A menina que o dançarino olha tem um corpinho de 18, daqui a pouco vai ter 18 e dar um caldo. Com certeza se estivessem na frente alguns dos caras dançando sem camisa estariam grudados, aproveitando a proximidade da dança pra fingir que esbarravam sem intenção, e algumas delas talvez acreditassem, mas não, meninas safas, provavelmente acostumadas a dançar ali no meio dos caras de corpos oleosos e cheiro de suor, protetor solar, ou com sorte algum desodorante perfumado barato. No meio, algumas mulheres lançam olhares, tentando pescar alguém atraído pelas bundas e peitos que a coreografia faz quicar. Um homem tenta puxar o braço de uma delas enquanto ela dança, mas a mulher se volta com agressividade num tapa que por sorte não pega em cheio seu rosto. Tudo isso no meio do círculo, enquanto nas margens, pessoas dançam despreocupadas, sem coreografia, e conversam. Ele sorri ao ver uma mulher de uns 20 anos dando mole pra um homem de uns 40, que segura um copo de whisky com gelo na mão esquerda, de pé, ao lado de uma mesa em que estão um balde de gelo e a garrafa.

Enquanto isso, seu filho observa o público da banda de axé. No lado mais deserto do palco, vê algumas crianças de uns 14 anos dançando, acompanhando os dançarinos no palco. Ocasionalmente o dançarino dirige a uma delas um olhar predatório. Não é de surpreender. Muitos homens ali, alguns bem mais velhos, encaravam a mais velha das crianças. Com certeza se estivessem na frente alguns dos caras dançando sem camisa estariam grudados, tirando proveito da proximidade e dos movimentos da dança pra fingir que tocavam no corpo delas sem nenhuma intenção, e algumas delas talvez acreditassem, e, com certeza, era dessa inocência que tiravam proveito. Mesmo que algumas conhecessem experiências parecidas, não eram safas, talvez não soubessem lidar com um assédio daquele tipo, e ainda que ele não soubesse de nada ou pudesse opinar, suporia que elas estavam naquela parte do palco justamente pra fugir do contato com esses caras e ainda assim poder dançar. No meio, algumas mulheres lançam olhares, tentando pescar alguém atraído pelas bundas e peitos que a coreografia faz quicar, enquanto outras se entregam completamente aos movimentos e à música, indiferentes a tudo, numa liberdade que o filho inveja. Um homem tenta puxar com agressividade o braço de uma delas enquanto ela dança num quase transe, e a mulher se volta num tapa que por pouco não pega em cheio seu rosto. Tudo isso no meio do círculo, enquanto nas margens, pessoas dançam despreocupadas, sem coreografia, conversam. Ele fecha o rosto ao ver um grisalho, de uns 45 anos, que segura um copo de whisky com gelo na mão esquerda, e tenta passar a conversa numa adolescente de uns 18, de pé, ao lado de uma mesa em que estão o balde de gelo e a garrafa.

De repente a mão do pai estava em seu ombro.

Filho. Eu sei que você olha pra esse pessoal e pensa no quanto você não se encaixa, no quanto você é diferente, mas você não precisa, você nem deve ser feito esses caras que saem no meio da balada puxando braço, isso é até perigoso, e eu sei que isso não é você, do mesmo jeito que não sou eu.

Talvez pelo susto, o filho o olhou dessa vez sem o movimento irritante, enlouquecedor dos pés, que o pai preferiu não comentar mas enquanto o moleque olhava a mulherada dançando chegou a balançar a mesa e sacudir o copo de cerveja ainda pela metade. Ele olhou a camiseta azul-escura e sóbria do filho, os óculos de Harry Potter, pequenos demais pra ele e que até a chegada do filho pras férias só tinha visto mulher usar, e a postura que parecia que não adiantava falar, sempre voltava pro errado em menos de um minuto. Mas agora, pelo menos, o filho tinha os olhos nele.

Quando eu era mais novo, tinha uns caras assim na galera que eu andava. E num carnaval acho há uns 30 anos atrás, todo mundo tonto, aquele cheiro forte de cerveja e a rua molhada e um pouco esvaziada depois de quase uma hora de chuva, um dos caras teve a ideia de uma brincadeira, de sair correndo no bloco e segurar as mulheres pela cabeça e gritar: “BEIJO OU CABEÇADA? BEIJO OU CABEÇADA?” e lançar um beijo na mulher antes que ela pudesse muito reagir.

Essa sua cara, filho, essa cara que você fez agora, era a cara que eu devia ter feito no dia.

Mas não.

Eu ri. Ri feito um idiota e todo mundo ali riu. Não lembro se foi um cara ou dois do grupo que fizeram mesmo isso, mas todos os outros riram. Mesmo que alguns rissem abanando a cabeça ou tivessem no rosto alguma coisa que não era parte do riso, todo mundo riu. Pensando hoje, pra mim foi tipo quando contam uma piada de preto ou veado e eu começo a rir mas eu não queria rir e eu sei que não devia rir, sabe?

Quando o pai volta a falar de mentira ele já não escuta. Ao longo de sua narração, Gabriel voltou com mais e mais intensidade a esfregar os pés um no outro, agora no ar, a areia já seca restando numa camada cada vez mais fina mas sempre ali, incômoda, numa abrasão estranhamente pesada, conforme o sol girava e começava a atingir suas costas curvas como se quisesse forçar a troca de pele num único golpe sangrento.

            Ele só volta a reagir, rindo até o choro, quando o pai conta que um dos amigos daquele carnaval pré-histórico, depois de correr pela chuva pedindo beijo ou cabeçada, tinha voltado com o nariz quebrado e a Gucci branca coberta de sangue.

*Bruno Nogueira é um escritor e tradutor mineiro, nascido em Lagoa da Prata e radicado em Curitiba, onde busca concluir um mestrado em literatura.

*Foto de Marina Scalon, @scalonmarinafoto.

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