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Coluna – Mundo Deserto│SOBRE O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE ‘OU O SILÊNCIO CONTÍNUO’

por Marcelo Ariel

É um processo de avaliação do pensamento dentro dos poemas, cada um de nós pode e deve fazer uma avaliação daquilo que sustenta suas vidas enquanto criações de uma interioridade que só se  sustenta pela imanência vegetal, não concebo distinções entre o poema e a vida, a vida deve ser vivida como um poema apesar da barbárie político-econômica que só existe porque a maioria não avalia seus pensamentos e atos, os atos da vida são atos do pensamento e como atos do pensamento cabe a nós avaliar o que sustenta esse pensamento se ele possui conexões verdadeiras com a realidade ou se ele a distorce e corrompe, dito isto, reli cada poema escrito por mim nos últimos trinta anos para saber o que ele tinha a dizer sobre a vida que vivemos hoje e só entraram no livro os poemas que de algum modo são também proposições criadoras de tensões capazes de iluminar de  essa tempestade no deserto chamada o Brasil de hoje, onde cada um se sente perdido e tocado por angústias e vagas esperanças. O Brasil é um poema e um problema!

No livro é possível uma visão em perspectiva de todo meu trabalho poético escrito até agora. Penso que escrevemos um único livro dividido em vários e o pensamento, as ideias que estão nestes livros se tornam mais nítidas quando postas lado-a-lado e em perspectiva. Ideias e pensamentos sobre Cubatão, Santos e sobre a vida nas cidades que se tornaram imensas zonas de exclusão social ou campos provincianos de alienação e fuga da realidade, há diversos poemas sobre as cidades de Santos e Cubatão no livro. Ou o silêncio continuo é uma súmula e ao mesmo tempo uma atualização, é uma tarefa importantíssima essa da atualização e reavaliação do passado,  classismos, colonialismos e racismos não existiriam  se confrontados com a potência do que é atual hoje num mundo que apesar das aparências em contrário está em processo de mutação e evolução, é necessário tentar ver para além das camadas e circuitos de instabilidade instável e das teses projetivas do acoplamento discursivo do poder, precisamos privilegiar o pensamento crítico-criador de novos modos de ver o mundo que só serão possíveis através do surto-êxtase.  Me interessa tensionar as visões da vida nestas cidades até que apareça a fratura, a fenda, a cisão, apareça não apenas como um sintoma mas como um ponto de partida para uma mutação destes lugares. O poema vai mais longe do que a psicanálise e a sociologia. Ler estes poemas será abordar dois inconscientes, o do poeta e o das cidades e sem essa abordagem duvido que exista algum avanço no sentido humano. Quando digo poeta não me refiro ao meu eu individual mas ao que os antigos chamavam de ‘a voz do Daimon’, mas a voz de um ‘Daimon’ que vive a vida cotidiana com todas as suas problemáticas e não uma voz que se isola em uma estratosfera. O  mundo da cultura não é uma pavimentação terminológica. 

Escrever nesse tempo conturbado em que estamos é uma tentativa de acender uma vela, como na famosa cena do filme Nostalgia de Andrei Tarkovski, é o ato de atravessar o espaço de uma fonte pública com uma vela acesa, sempre é uma tentativa de ver a realidade de um modo novo e de vivê-la de um modo novo sem negar seus aspectos paradoxais e problemáticos e evocar o pensamento e o olhar como forças que nascem de uma contemplação ativa do mundo. Precisamos intervir na vida das cidades criando a beleza do pensamento como potencializador do bem viver, uma beleza poética que resulte em novos modos de pensar as cidades, não com armas de fogo. Precisamos de poemas e não de armas! Aos que acharem que estou sendo alienado ao falar disso, respondo que em meus livros há poemas sobre a anistia prisional, defendo a transformação de cadeias em universidades públicas abertas e gratuitas enfim, os poemas não podem ignorar as problemáticas sociais que podemos resolver com um avanço e potencialização da educação e da cultura e não com a mistificação da violência e das armas de fogo e a militarização da sociedade. O Sermão da Montanha é no fundo um poema que vai na contramão desse tipo de pensamento que defende as armas! Sinto que nós, poetas deveríamos retomar, roubar de volta o léxico das religiões, da astronomia, da física, da economia, da arquitetura, da botânica e da matemática e criar novos usos para eles.

*Marcelo Ariel é poeta e performer, autor dos livros “TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS” (LetraSelvagem, esgotado), “RETORNAREMOS DAS CINZAS PARA SONHAR COM O SILÊNCIO” (Editora Patuá, esgotado) , “JAHA ÑANDE ÑAÑOMBOVY’A” (Editora Penalux) entre outros. Atuou no longa metragem “PÁSSARO TRANSPARENTE” de Dellani Lima e gravou o disco “SCHERZO RAJADA CONTRA O NAZISMO PSÍQUICO”. Atualmente trabalha em seu primeiro romance “BREU FANTASMA” e coordena cursos de poética e anarcomagia. Lançou neste ano pela Kotter Editorial “OU O SILÊNCIO CONTÍNUO -POESIA REUNIDA -2007/2019” (https://kotter.com.br/loja/ou-o-silencio-continuo-poesia-reunida/ )

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