Cart

Coluna – Pauleta│Do tableau o tabu

por Vinicius Comoti

Criar esperas para preenchê-las.

Robert Bresson

 

A carruagem debandava pela noite fria quando o poema russo terminava de ser escrito sob a nudez de uma santa terrestre. Se esculpiam mutuamente mestre e felino, choque e volúpia, âmago e patologias; desajeitados, foram logo cobertos pela vilania do feudo que não aceitava qualquer tipo de representação, a rusga era a partilha da arapuca e sua aura infantil repleta de borrões. Por repartir alguém em pedaços, nuvens e bitolas, movem-se exércitos contra o caolho e seu universo pragmático. Pela voz rouca se sabia a ordem de qual figura seria mutilada, trincada em cores, traços, farpas e bagaços: forasteiro movimento íntimo no batuque do orgasmo.

Blefes. Bolor. Bisonhas. Bisões mal passados e descoloridos pela gordura que rastejava na calçada do açougue. Panteão de símbolos sorrateiros e a queda da vertigem ao imobilizar os estranhos ecos que foram se estreitando. Passarinhos na gaiola matutavam o devir com o demônio. O vazio brotava no imaginário deste capítulo no seixo pictórico, o sujeito melado na gana, no fiasco da semente que jamais irá brotar, apenas descarrilar os vencidos na inundação do paraíso. E quem com isso? E as profundidades, os olhares, as paredes? O pinto do pintor era cortado em praça pública e jogado para a plateia sedenta pela sobra do espetáculo. Rompantes de delírio, cacos de nervos, ossos do santificado, gargarejos da fúria oleosa pelas mãos que depois da carícia, se esbaldavam com a cumplicidade das algemas.

O pincel voltou aos temas mundanos e a fustigação da labareda, se rastelou à masturbação do oriente, as cretinices que aprendera na instituição dos apressados, o goro da falsidade. Há forças, escuridão, pele, bico duro dos peitos. Um corredor com diversas portas entreabertas das quais escorrem o coaxar saltitante que me agride ao próximo verbo, a inconsequente sintaxe. Para se aproximar do ato e suavizar o recalque dos lampejos seria necessário muito mais do que um caminhão de cerveja tombado, um quilo de erva e a aparição das entidades dançando as veredas e o cansaço. Pisou na sombra, vulgarizou a montagem. Conquistará o vento que levará todas as felicidades como uma nuvem se repartindo aos primeiros abrolhos da tempestade.

Uma leva do beijo, do gozo, da multiplicação de pernas na cama de colchão batido. Se amacia com a luta, com o outro lado da lua; o sorriso se transforma no engodo que obtusa o pestanejar. Nascem cores para o preto e branco, alguém se cola ao sol que devido aos círculos que se intensificam e tingem o rio turvo, se descortina. Pra quê moldura? E o que brota de fora desmedido se condimenta lhe arranhando o centro de sua inquisição. O ciclo morre. A lâmpada queima. Os corações amontoam o carnaval do inferno, pregos enferrujados e uma distante picuinha entre o ser e a vítima. Não se conhecem, mas já se viram pelos desquites das esquinas, trocaram aspas, rendendo a superfície, o tema e a nebulosa do afresco.

Sabatina no livro aberto, culto de escorpiões na fresta empoeirada, o desejo pela prenhe e a sua materialização no jogo dialético. Ida e volta na glosa, os tortos redemoinhos conjugados pela cativa inspirada pelos grandes momentos do século dezoito. Pinta no universo, pinta nas coxas, pinta o renascimento, pinta nos girassóis, pinta o eclipse, pinta a interrogação, pinta no bambo, pinta na ranhura, pinta na transe, pinta a pá, pinta a terra…

E no vinco de cada farelo surrupiado, o sublime cravejado na paixão prematura, chocha, louco amor visionário. Se o guardanapo umedecido foi jogado no lixo, louvado seja a memória dos postes angariados pela urina dos bêbados. A casa inflamou, o mar se encaracolou, pandora ruiu na aurora do adeus. Não teve beijo. Nem perdão, apenas tinta. A hipótese dos cubos na metalinguagem das flores. Caroço de trevas. Fome do artista que definha pelas margens do impossível, especulando os rostos, as sensações, e sendo o alvo de uma vingança travada pela arte e sua epopeia humanista-cretina. Se vira ao berro, um carinho na orelha o lembra sobre todos os intervalos nos quais a lima amoleceu o passo rudimentar.

Eu te amo! Sussurrou baixinho. Só acredito vendo. Ou melhor, apenas na contradição dos seus rabiscos.    

 

**Entre a libido das araucárias e a baderna dos fantasmas, Vinicius Comoti se esconde pelo Ahú, abrolho menor de Curitiba. Costuma se debruçar sob o cinema brasileiro, como também vislumbrar em cada folha que despenca no seu caminho, a força de um verso sínico. Publicou os livros Lanzurapa (2016) e Leite com Manga (2018). 

*Colagem da amiga Talita David

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Carregando...
Mande um recado pra nós.