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Coluna – Terra Incógnita│Para que servem os professores?

por Daniel Osiecki

Há muitos exemplos na literatura de escritores professores. Não que seja mérito ou demérito, mas essa constatação sempre me atraiu. Durante o século XIX, os escritores ou eram advogados ou médicos. Naturalmente pela escassez da oferta de cursos universitários, que se restringiam quase que 100% a Direito e Medicina.

Já no século XX os escritores deixaram os gabinetes e os consultórios e ocuparam as redações dos jornais. Carlos Heitor Cony, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Lúcio Cardoso, Drummond, só para citar poucos, são alguns dos nomes mais relevantes de escritores jornalistas. Da segunda metade do século XX em diante, os escritores passaram a ocupar outro espaço: a academia. Nomes como Affonso Romano de Sant’Anna, Cristóvão Tezza, Ricardo Lísias, João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Otto Leopoldo Winck, Paulo Sandrini, Marcelo Sandmann e tantos outros, são exemplos de romancistas e poetas que exercem o árduo papel do mestre.

Eu mesmo, este humilde cronista, sou escritor e professor. Trabalho há anos no ensino superior e na educação básica, e foi por estar sempre próximo da literatura que optei pelo curso de Letras. Mesmo ambas as atividades, a do escritor e a do professor, serem tão desvalorizadas, continuo firme em ambas.

Nunca se deu tão pouca importância à atividade intelectual como de 2016 em diante. O desmonte do ensino público se intensifica a partir do governo golpista de Michel Temer e chega a seu ápice com a eleição de Bolsonaro. Para compor a pasta da educação, o duce nomeia, por indicação do idoso youtuber Olavo de Carvalho, Ricardo Vélez Rodríguez, um desconhecido professor universitário ultraconservador.

Dentre tantos absurdos que não caberiam neste singelo artigo, o excelentíssimo ministro Rodríguez, num arroubo lisérgico que deixaria Syd Barret boquiaberto (lendário fundador do Pink Floyd que, por uso sistemático de LSD, enlouqueceu em 1968), emitiu a seguinte nota no site do MEC:

“O JORNALISTA ANCELMO GOIS, DE O GLOBO, FOI TREINADO EM MARXISMO E LENINISMO NA ESCOLA DE FORMAÇÃO DE JOVENS QUADROS DO PARTIDO COMUNISTA SOVIÉTICO”. O texto está todo grafado em caixa-alta, como é muito comum em textos de baby boomers que ecoam, sempre gritando, pelas redes sociais.

Outra fala bastante categórica do augusto ministro é sobre a universidade não ser, naturalmente, para todos. “A ideia de universidade para todos não existe… As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país]”, disse o ministro ao Jornal Valor Econômico, dia 28 de janeiro deste ano. Também bradou o Sr. Rodriguez: “A primeira pergunta que me fez o Presidente: ‘Vélez, você tem faca nos dentes para enfrentar o problema do marxismo no MEC?’ Eu disse: ‘Presidente, é o que faço há 30 anos’”, em entrevista à Veja.

Enfim, estar na área de educação tendo um ministro que faz parte da ala mais obtusa do governo e sendo artista sem ter pasta da Cultura nos ministérios, é sinal de preocupação constante, de medo constante, de estar na berlinda de forma constante. Mas a sala de aula e a arte são campos privilegiados para a resistência.

Resistência, camaradas! 

*Daniel Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. É professor de literatura, crítico literário e editor regional da Revista Flaubert. Publicou o livro de contos “Abismo” (2009). “Sob o signo da noite” (contos) é seu segundo livro. Mantém o blog “Távola Redonda” (www.novatavolaredonda.blogspot.com), organizador do coletivo “Vespeiro”.

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