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Lua – Colunista Regina Ribeiro

por Regina Ribeiro

 

Toda arrumadinha, sem um fio de cabelo fora do lugar, a postura ereta, deve continuar praticando pilates, a roupa boa, dá pra ver, o tecido todo sem bolinha de velho, deve ser mohair, cinza, porém não triste, não com essa barriga deste tamanho todo, uma lua cheia dentro da barriga e ela dizia que a filha se chamaria Lua. Mas não, não é a Lua que está na barriga, Lua é essa criança bem cuidada e educada que puxa o carrinho da mãe e que poderia ter sido tua. Não, não poderia, muito criança de condomínio fechado pra ser tua.

Ela tá grávida, mas não tem nada de Virgem Maria e a meia calça preta fio quarenta te leva de volta àquele inverno em que você tirava as meias-calças dela para encontrar as calcinhas sempre pretas, porque era mais fácil de combinar com os sutiãs sempre pretos – e ela, naquele tempo tinha suas roupas furadas ou descosturadas, os botões dos casacos faltando, os vestidos precisando de pontos. Ela não sabia costurar e você, filho de costureira, prometeu que cozeria todos os seus trapos, mas ficou só na promessa mesmo. Agora assim, toda madame, ela que antes estava de saco cheio da sua kitnet que parecia cozinhá-la em dias de calor, de não ter um real poupado, mas uma dívida de só subia no banco, de ir de um subemprego a outro e dizia que suas pernas doíam, que seu cérebro se atrofiava, que estava cansada do automatismo, que se sentia ficando burrrrra.

Aí veio aquela amiga americana que fazia parte de uma seita, mas não, ela insistia que não era seita, era o oposto de seita, eram ferramentas justamente para « desprogramar nosso cérebro », « desconstruir nossos hábitos » e para poder « fluir livremente », sem limites. A americana, com aquela mentalidade americana, disse que era bom ter um negócio porque a partir do momento em que ela, a americana, começou a ganhar dinheiro, ficou livre para cumprir sua verdadeira missão no mundo. E ela, que era toda esquerda trabalhadora, falou que nunca tinha pensado por aquela perspectiva e quando disse isso, puxou aquele « r » que te fazia viajar por restaurantes cinco estrelas situados em terras monárquicas, onde coisas estranhas como rãs e lesmas, coisas as quais você jamais teve acesso, eram servidas em pequenas porções e enfeitadas com molhos e ervas de cores inacreditáveis.  E ela falava assim: « nunca tinha pensado por essa perspectiva », sim, ela dizia coisas que ninguém dizia na vida concreta, aquela do dia a dia das multidões e não eram só coisas que ela tinha lido em algum artigo, visto num filme ou trazido na mala através de incontáveis pontes aéreas, mas também inconvenientes e sem sentido, como aquela vez que ela te ouviu dizer que não seria mais padrinho de nenhuma criança e ela respondeu que então não te chamaria para ser padrinho dos seus filhos e você não soube o que responder, não sabia se ela queria que você dissesse que seria o pai, porque porra, só tinha um mês que vocês se conheciam ou então quando se recusou a beber uma cerveja artesanal feita pelo teu melhor amigo porque tinha, segundo ela, cheiro de homem de rua,  mas não de qualquer homem de rua, mas daquele que surge quando você se acha muito sortudo de pegar um vagão vazio no trem em plena greve de transportes para depois descobrir que é porque ninguém suporta o odor do  passageiro clandestino com seus sacos rasgados e cheios de coisas sem valor.  Muito doida essa menina.

E ali estava, toda ponderada observando os produtos, ela, que costumava fazer tudo mal-feito porque tava sempre apressada ou nervosa porque sentia que não havia tempo a perder, ali não, parecia um poço de tranquilidade com as mãos postas sobre a barriga, contemplativa, plácida, é essa a palavra, plácida, tão absorta que parece nem reparar em você a reparando e a imagem dela toda plácida o remete a uma outra imagem, a do lago que ela escolheu naquela dinâmica de grupo para mais um subemprego mal pago numa dessas grandes empresas impessoais e piramidais, onde vocês, na base, escutam os gritos e reclamações dos clientes invariavelmente enganados e insatisfeitos que nunca terão acesso aos ouvidos dos que estão lá no topo. Foi nessa dinâmica que vocês tinham se conhecido.

O animador pedia a cada um dos candidatos para escolher uma imagem que os representasse entre inúmeras outras expostas sobre uma mesa. Ela explicou que tinha escolhido o lago porque era um lago tão tranquilo, com águas quase paradas, um lago que trazia uma calmaria quando a gente o « contemplava » e que portanto o lago era como ela, que aparentava monotonia e limpidez na superfície, mas que nas profundezas era violência e mistério. E, vem cá, como é que você sabe tanto dela? Não durou nada mais que um mês, apenas um ciclo lunar, foi isso que durou, como podia parecer ter sido uma vida ao lado dela? E aí, ela, que sempre te assustou, que sempre te botou em pânico, mostra que nesse aspecto continua a mesma quando vira para você, como se já tivesse se dado conta da tua presença há muito tempo, e o rosto dela se ilumina. Sempre teve o melhor dos sorrisos, não são só os lábios que se abrem, mas a cara inteira sorri, os olhos sorriem. E ela diz, surpresa:

Pedrrrro

E, mais uma vez, calafrios, o teu nome nos lábios dela e aquele sotaque forte quando dizia o teu nome. O teu nome na sua boca. A boca carnuda dela, o lábio inferior entre os seus lábios, a pele morena num arrepio, os pelos grossos do braço sobre seu toque. Você se lembra, apesar de ter sido apenas um ciclo lunar.

Lua crescente. Ela contou que vinha de inúmeros relacionamentos mal sucedidos e facilitados por aplicativos e que os amigos não aprovavam o fato de ela colocar a foto dela lá, no mercado de carne. Ela riu deles, imitou-os citando Bauman. Imagino que tenha se sentido bem besta quando percebeu que você não tinha passado de mais um engodo. Mas não, pensando bem, ela disse: « O que tem errado em se machucar com relações que não dão certo? Eu ganho muito de cada experiência ».

Lua cheia. O mundo parecia feito para vocês quando entraram numa passagem real ornada por árvores simétricas e o locutor da rádio, num exemplo perfeito de sincronicidade, esse tipo de sincronicidade que às vezes nos faz acreditar que o universo conspira a favor, que as coisas estão acontecendo como deviam acontecer e que deve existir realmente algo que senão igual, muito próximo daquele deus que os homens convencionaram chamar Destino, anunciou uma ópera baseada em um poema do Goethe.

Mais tarde, fumaram um baseado e andaram pelos campos de trigo. Só havia vocês dois, o trigo até onde os olhos alcançavam e o barulho dos seus passos estalando os ramos de trigo. Você esticou suas mãos e ia tocando os ramos que iam ficando para trás, pelo caminho. Ela via suas costas taurinas se afastarem. Disse que se sentia num filme do Terrence Malick. Você concordou. Era um delírio sensorial. Você estava completamente presente e cada poro do teu corpo e cada partícula equivalente no teu espírito pareciam abertos para receber a chama da existência  de cada  entidade que vive e se arrasta pela terra, pelos  céus, pelos oceanos e pelas profundezas do cosmos infinito. Nada em anos te pareceu tão intenso como aquele momento em que só existia ela, você, os seus passos e o trigo que grudava nas mangas do teu casaco.

Lua minguante. No outro dia,  mal humorado, quebrou uma garrafa de vinho branco enquanto tentava alcançar aqueles grandes camarões e disse que tinha que pagar por uma experiência tão intensa. Ela, que lia a Origem da Tragédia respondeu que não tínhamos que pagar nada, que a culpa era uma maldição socrática, que tínhamos que ser como os gregos com a sua vontade de viver e repetiu aquela ladainha do dia em que se conheceram, sobre as civilizações serem divididas entre civilizações da vergonha e civilizações da culpa e ela sabia que era verdade o que você tinha respondido então, que não tinha nem vergonha, nem culpa.

Os cabelos estão mais longos, o rosto redondo. E ela, sempre inconveniente, pega as suas mãos e coloca na barriga dela e conta que é o segundo.

— Que bom que você tá feliz — você nem sabe se é verdade, mas não tem muito o que dizer nessas horas, só tem que dizer algo. Ela dá uma gargalhada e conta que casou com o Efemérides.

— Com o Efemérides???

O Efemérides, aquele que veio antes de você, espera aí, então você não foi nada a não ser um tempo do maluco? Puta que pariu, com o Efemérides? Ela que era tão inteligente, que é que foi ficar logo com ele? Ela contou naquela época « É uma piada interna. É que o hobby dele é anunciar a morte de famosos no Facebook. RIP Amy Winehouse. Descanse em paz, Stan Lee ».

Um mês. Isso que você foi para ela. Amor líquido.

Ainda minguante. Quando passa a lua de mel, a sintonia parece se quebrar, como se uma aura mágica que englobasse os amantes, simplesmente evaporasse. Aí a gente começa a se esbarrar, começa a se implicar com a maneira que a pessoa estala a língua, como ela come derrubando tudo na camisa e outros pequenos hábitos irritantes. E a gente tem que decidir se, apesar de todas essas coisas, vale a pena o risco. Porque todo relacionamento envolve um risco e você já tinha sido machucado antes. Naquela época, você ainda estava ferido. Queria companhia, mas o lugar já estava ocupado. Por um fantasma.

Percebeu que as coisas estavam esfriando quando ela começou a escrever como um adolescente de doze anos com dislexia. No inicio, era cuidadosa com as palavras. Fazia parágrafos e prestava atenção na ortografia.

— Você teve filhos? Não? Ah é? Eu sempre achei que você seria um paizão.

E, quando ela diz isso, você percebe que ela agora consegue enunciar o ão perfeitamente, quase nem parece que ela é estrangeira e a pontada de ciúme aparece porque vocês treinaram tanto mas, na última vez que se falaram, ela ainda guardava um forte sotaque quando pronunciava as sílabas nasais. « Pena que havia um fantasma com a gente, ela disse, naquela última vez. « Um homem marcado », foi assim que ela te chamou. « Se encontrasse o amor, botaria a perder porque estava marcado pelo fantasma da ex ». Ela foi dura. Disse que não tinha como competir com 12 anos de estórias. « Você pode até lembrar desses momentos bons, mas eu só lembro da angústia que foram as últimas duas semanas do nosso não-namoro. Você sumido com seus problemas e eu sem saber se te esperava, sem saber se a gente tinha ou não alguma coisa pra, depois de duas semanas longe, descobrir que a gente tinha era nada ». « Nada também não. Você exagera ».

Lua nova. E aí, você tem que esquecer. Esquecer que você tinha ficado de consertar o filtro da cafeteira e que ia  ensinar ela a dirigir. Esquecer tudo isso. Tudo o que era para ter sido. As fantasias que criaram, que construíram juntos na medida em que as recitavam. « então, quando formos passar as férias em São Luís, vou te ensinar a dirigir, já nas dunas ». Era um mundo que tinha sido objetivado através da fala, que existiu na imaginação conjunta e não apenas na tua cabeça. Finalmente você entendeu Raul Seixas, sonho que se sonha junto é realidade. Só que você teve que desfazer esse sonho a dois. E descobriu que era impossível de simplesmente extingui-lo, como se ele nunca tivesse existido. Não passou de sonho, mas teve algum tipo de realidade, algum tipo de existência que você agora precisava esquecer, enquanto via com desespero a foto dela descendo cada vez mais na sua lista do WhatsApp.

Lua Crescente. Um mês e meio pra ser exato e faz quanto tempo? Seis anos? É, seis.

— Lua, vem conhecer o tio

(Ela, que achava estranho essa mania  brasileira de chamar todo mundo de tio).

— Oi Lua! Tá contente que vai ter um irmãozinho?

A menina sorri, tímida. O mesmo sorriso da mãe. O sorriso que vai atormentar muito neguinho por aí.

— Que fofa! Ela tá com quantos anos?

— Seis?

Seis anos de separação. Você deve ter arregalado os olhos porque ela ri da tua cara de pânico e diz que não precisa se preocupar porque ela não é tua. Como ela tem coragem de falar algo assim na frente da menina? Inconveniente para sempre.

— Você sabe, disse ela alisando a barriga, gravidez é uma forma de suicídio. A gente salta em outra vida. Às vezes por convicção, mas na maior parte do tempo por puro desespero.

E você sai de lá se perguntando o que serão dessas crianças. Mas bom, pensando melhor, pior que vocês acho que não ficam.

 

 

*Regina Ribeiro se formou em Comunicação Social e publicou em revistas literárias no Brasil antes de mudar-se para Paris, onde se graduou em Filosofia pela universidade Paris-Sorbonne. É mestre em História de Filosofia, Metafísica e Fenomenologia e professora de filosofia em um lycée na França. Ignóbil é o seu primeiro romance. 

Segundo a autora, “quando escrevi Ignóbil estava lendo e querendo fazer algo tipo David Foster Wallace e Thomas Pynchon. No mais, minhas leituras constantes são Faulkner, John Fante e os filósofos existencialistas”. 

 

Foto: Quadro “Fogo na lua cheia” (1933) por Paul Klee.

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