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Minha trindade distópica – Coluna Vate Voraz

(Por Daniel Osiecki)

Desde os longínquos anos de graduação (passei pela graduação em Letras de 2002 a 2006) passei construir meu paideuma de forma um tanto anárquica, sempre mudando conforme o momento, mas ainda assim com um foco. Os concretistas incutiram em minha curta e imatura trajetória de leitor (e posteriormente de escritor) a ideia de definir aquilo que é essencial e relevante. 

Passados quase vinte anos do primeiro contato com autores da chamada literatura distópica como Aldous Huxley, George Orwell, Ray Bradbury, Anthony Burgess e outros, penso, a priori, em três obras fundamentais dessa vertente que dialogam, e muito, com o terrível tempo presente (ainda mais no Brasil das rachadinhas, do protofascismo, do anticientificismo, do terraplanismo e tantos outros ismos). 

A primeira é o clássico Admirável mundo novo, romance de Aldous Huxley publicado em 1932 (período em que Hitler já se tornava conhecido na Alemanha), e que aborda uma espécie de subversão da sociedade ideal pensada por Thomas Morus em 1516. A Londres de 2540 (632 DF, Depois de Ford) é uma sociedade dividida por castas e ao tomar conhecimento de uma espécie de reserva autóctone, se vislumbra com antigos conceitos civilizatórios representados pela imagem de John Savage, o selvagem que lê Shakespeare e não se abstém de seus sentimentos pessoais.  

Há de se lembrar que na Londres pensada por Huxley, há códigos morais e ideológicos hedonistas irredutíveis que acabam por se tornar opressores. Mais uma vez Huxley trabalha aqui com a questão da inversão de valores de prazer, sendo que em Admirável mundo novo, a busca pelo prazer é vigiada e obrigatória e representada pelo Soma, uma espécie de droga sintética causadora de euforia. Algo próximo do ecstasy, ou MD. 

A segunda obra é 1984, clássico absoluto e magnun opus de George Orwell. Livro publicado em 1949, também retrata uma sociedade autoritária, porém aqui não há a busca pelo prazer, como na sociedade hedonista de Huxley. A atmosfera de 1984 é sombria, claustrofóbica e a presença invisível do estado opressor está sempre a um passo adiante do indivíduo. Aqui a repressão é maior, as penalidades são maiores. Em 1984 há um elemento muito relevante na narrativa, que é a manipulação da mídia, a manipulação da linguagem, visando, assim, a manutenção do status quo opressor do estado.  

Por último, mas não menos importante, Laranja mecânica, romance de Anthony Burgess de 1962. Mais uma vez há a ambientação em uma Londres futurista em que o estado exerce o papel de algoz. No icônico romance de Burgess (que virou ícone pop mais comentado do que lido muito em decorrência da genial versão cinematográfica de Stanley Kubrick, de 1971), o personagem narrador é Alex, um jovem ex-delinquente, membro de uma gangue violenta que roubava, estuprava, matava e praticava tantos outros atos criminosos, que faz uma espécie de balanço geral de sua vida desde os dias quando praticava tudo o que viesse à mente, sua passagem pela prisão e o dramático processo de condicionamento pelo qual passa como condição sine qua non para redução de sua pena. 

É interessante observar que em Laranja Mecânica, o processo de condicionamento proposto pelo Estado visando a diminuição da população carcerária é tão cruel e violenta, senão mais, do que as próprias atitudes de Alex e de sua gangue. A crítica de Burgess às políticas de diminuição da criminalidade no romance é mordaz e nada sutil.  

Vale ressaltar um elemento fundamental que difere Laranja Mecânica dos outros livros citados, que é a construção de uma linguagem bastante específica que emula uma espécie de léxico teen futurista com elementos do eslavo. É a linguagem Nadsat, explorada em toda narrativa pelo narrador já distante no tempo, mas que ainda usa o mesmo tipo de construções sintáticas formais aliadas a um léxico debochado e estranho.  

Agora, o que esses três romances distópicos têm a ver com a situação atual do Brasil, como citei no segundo parágrafo? Muita coisa, na verdade, mas para não nos estendermos muito mais, podemos pensar em uma aproximação de cada obra com o Brasil atual.  

Vivemos, com os adventos de redes sociais (lembremos que uma eleição foi ganha através disso!) imersos em uma sociedade pretensamente hedonista com certo grau de carnavalização das emoções, tornando as pessoas deslumbradas com isso, tal qual em Admirável mundo novo.  

O Brasil tornou-se uma espécie de vitrine do estado opressor que vigia, pune, dedura e busca dizimar seu opressor, não havendo espaço para saídas. Embora ainda haja esperança (em 1984 não havia), os caminhos para o livre pensamento são árduos, mas se fazem evidentes nas manifestações populares. O estado brasileiro atual tenta nos dividir em membros altos e baixos de um “partido”, tal qual em 1984.  

Fazendo um paralelo com Laranja Mecânica, de algum tempo para cá, principalmente com a população preta, pobre e de comunidades periféricas, nunca as ações da força policial militarizada foram tão violentas, tornando-se mais violentas do que algumas ações pretensamente praticadas pelos marginalizados, bestializados e excluídos da sociedade, tal qual no romance de Burgess.  

Possivelmente não foi por acaso que nas três obras descritas aqui, há a presença de disparadores sociais, cada um à sua maneira: alucinógenos. Como já apontei acima, em Admirável mundo novo há o Soma; em 1984 os trabalhadores são forçados a consumir sua dose diária de gim; e em Laranja Mecânica os membros das gangues consomem leite com drogas sintéticas para aguçarem seus sentidos violentos.  

Parece que a distopia na qual estamos imersos não terá fim, mas terá. As movimentações populares estão acontecendo, o povo está nas ruas e nossa população não é obtusa, como pensa o bolsonarismo. Avante, camaradas, estamos próximos de encerrar a narrativa distópica na terra brasilis.  

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