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O antissemitismo na polêmica série Freud da Netflix.

por Francisco Carlos Duarte*

Este ano se celebra os cento e vinte anos da publicação de  A Interpretação dos Sonhos (1900), obra-prima seminal da descoberta do inconsciente e da invenção da psicanálise.

Em dissonância com as comemorações, foi lançada pela Netflix a polêmica série austro-alemã de romance policial denominada Freud . Composta por oito episódios com duração de uma hora, a sequência se passa na Viena do século XIX e é narrada num ambiente nebuloso, no qual sonho e vigília se confundem, numa história de horror em que o sexo acaba se revelando um jogo amoroso com a morte. A série noir é regada por suspense, aventura e mistério, com toques de trama policial. Além disso, gira em torno da vida da personagem histórica Sigmund Freud, o médico judeu, hermético e genial, que inventou o saber sobre o desejo.

A trama se desenvolve a partir de uma caricatura de Sigmund Freud como médico recém-formado, que busca compreender a causa da histeria de seus pacientes. Além disso, há uma tentativa de convencer os outros colegas vienenses de que aquilo não é uma doença do cérebro, mas, sim, da “alma”. É ridicularizado por todos ao tentar expor o conceito de inconsciente na psique humana e a possível solução dos sintomas com hipnose. A produção beira o universo da fantasia e da possessão demoníaca, e expõe, de modo despudorado, tanto sua intimidade como a fiel amizade com a psicanalista Lou Andréas-Salomé, que durou vinte e cinco anos. Entre 1890 e 1910, Viena viu nascer o que se convencionou chamar de modernidade vienense. Estes 20 anos são resultado de mutações políticas, sociais e culturais, que tiveram início em 1848, quando ascendeu ao trono Francisco José, na época com 18 anos. O império austro-húngaro compunha-se de várias nacionalidades sob o domínio da Áustria: tchecos, iugoslavos, sérvios, húngaros, romenos e venezianos. Em Viena se encontraram, no limiar do novo século, as  estéticas  que marcam a modernidade, desde a própria psicanálise até a solução final dos nazistas.

Outra caricatura da série é o escritor judeu Arthur Schnitzler, sobre o qual Freud escreveu: “Cheguei à conclusão de que o senhor sabe por intuição – é verdade que devido a uma aguda observação de si mesmo – tudo o que descobri depois de fatigantes trabalhos com outros homens”.

Freud é uma série não biográfica, e alguns já a estão comparando com outros êxitos da Netflix, tais como Mindhunter ou The Alienist. Querem mostrar um Freud nunca antes visto: um homem em busca de reconhecimento, entre duas mulheres, entre a razão e pulsão. Sua psicanálise e o conceito de Eu, que não foram criados do nada: “se baseiam  nas experiências de um  gênio que experimentou todos os aspectos da humanidade”, comentam os roteiristas.

A série policial, dentre outras coisas, omite que a bela Viena não era a cidade natal de Freud, ainda que tenha sido, no entanto, onde ele passou a maior parte de sua vida. Assim como a própria cidade, também a relação de Freud com Viena era paradoxal: ele a detestava, mas foi ali que nasceu a psicanálise. Recusou-se a fazer dela a sede de sua associação internacional, em 1910, mas, mesmo assim, não queria partir, em 1938, quando os nazistas a invadiram. Como judeu, sentia-se descentrado numa sociedade que não era a sua, e mais, era antissemita. O seriado de crimes e mistérios expõe a adicção de Sigmund Freud, cidadão judeu e patrimônio da humanidade, em cocaína, cujo uso  era medicinal à época.

Enfim, os roteiristas apostam que a série expõe a verdadeira  história por trás de Freud. O horror ficcional é toda ficção capaz de lidar com o sobrenatural, o fantástico, e de provocar uma reação emocional que inclua algum aspecto de medo ou temor.

A  infidelidade da configuração do personagem Freud salta  aos olhos, já que este conto policial parece mais uma tentativa de reconfigurar e insultar a sua trajetória pessoal. Na realidade, narra a história do jovem Freud, útil por suas técnicas inovadoras para ajudar a rastrear um assassino, acompanhado da médium Fleur Salomé, mulher jovem com um “poder especial”: visualizar crimes e assassinatos quando está em estado de estupor! Tudo fica sombrio então: ela tem visões de Claire, uma menina desaparecida. Salomé explora muito os seus poderes mediúnicos e descobre onde está a menina; sabe que foi torturada, está à beira da morte e, mais ainda: quem fez tudo aquilo. Além de Fleur Salomé, na equipe está também o veterano de guerra e inspetor de polícia, Alfred Kiss. A hipnose ganha, então, a qualidade de um portal místico. Entre jogos de poder político, sangue, tortura e manipulação, Freud sai de foco, e toda uma rede de assassinatos ganha destaque. Ninguém sabe por que Fleur desvenda os crimes, como os descobre e, mais ainda, por que os assassinos agem de maneira tão bizarra.

O mistério aumenta quando símbolos ocultistas, desenhados com sangue, aparecem nas cenas dos crimes; o cunho da psicanálise vira completamente problemático, e a série perde quaisquer significados históricos para tornar-se uma produção de mistério. A ambivalência moral, a violência criminal e a complexidade contraditória das situações e dos motivos, concorrem ao dar ao público um mesmo sentimento de angústia e de insegurança, a marca registrada do filme noir.

Freud jamais denegou sua identidade judaica, nem entre seus próximos, tampouco entre seus discípulos, ainda que em sua própria família houvesse sionistas convictos.

O seu legado  está mundialmente presente em vários campos da vida cultural, científica e artística. Inventar o saber sobre o desejo foi, para Freud, sua forma diferenciada de pensar o homem e um modo de afirmar sua identidade cultural judaica. O antissemitismo sutil do filme põe em dúvida a ética, a autenticidade, a dimensão, a intensidade e as consequências da psicanálise freudiana para a humanidade.

Talvez, boicotar essa história de detetive, cujos estilos e estratégias de autoria apontam para a suposta charlatanice do intelectual Freud, seja a coisa certa a se fazer. Isto porque a defesa de Freud e do seu judaísmo é a defesa da sua obra como patrimônio da humanidade.

O suplício é a espera dilatada de que nos próximos capítulos a ética de Freud, símbolo do saber  sobre o desejo no século XX, seja representada à altura de sua reputação de alguém que inventou a cura pela palavra. A ironia do discurso ficcional da série no tratamento da ética da cultura judaica, que marcaram a singular personalidade de Freud e sua condição judaica é, no mínimo, insuportável.

Querer transformar o fascinante Freud em super-herói é mais uma bobagem da série, pois os super-heróis ocuparam o lugar dos mitos antigos na cultura contemporânea. Não seria o caso de Freud que, como se sabe, é um um dos grandes mitos da modernidade.

Enfim, o discurso da novela policial, que faz uma leitura ficcional da vida de Freud, não ajuda em nada a luta contra o antissemitismo nas sociedades democráticas ocidentais.

 

*É Ph.D in Law e Procurador do Estado do Paraná inativo.

 

Notas

Lou Andréas-Salomé, de Stéphane Michaud, Ed.Asa, Lisboa, 2001.

SZASZ, T. (1963/1976) “Freud comme leader”, in JACCARD, R. (Coord.) Freud Jugements et Témoignazes. Paris: PUF.

YERUSHALMI, H. (1991) Freud’s Moses, Judaisme Terminable and Interminable. Yale: Yale University Press.

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