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O Livro Que Não Era Meu, Foi Passear, Não Retornou, Fantasma! – Crônica de Fabio Santiago

por Fabio Santiago 

Augusto, como um fantasma visionário refugiou a minha infância.

Veja poeta, ninguém assistiu ao enterro da minha última quimera, nem visitou os arredores, apenas a ingratidão – esta pantera – foi a minha companheira, na solidão se fez amiga. Entre as feras quis ser fera, não pude, melancólico traço, escarro, escarro!

Liguei para o meu irmão:

– Pedro, preciso daquele livro do Augusto dos Anjos, aquele que tínhamos em casa, está com você?

– Está sim!

– Pode me dar? Me emprestar? Preciso estar com ele.

– Posso lhe emprestar, era meu, amo este livro.

Lembro do menino que fui, mirava versos. Não compreendia, impossível naquele instante, impossível hoje, apreender mais do que me cabe.

Filho mais novo, ao lado da arte, me sentia protegido de tudo, ficava ali, sonhando. Passeava por livros, enciclopédias, filmes da televisão, vinis, VHS…Por falar em disco de vinil.

– Os meus discos estão com você né?

– Sim estão.

– Hum.

Não tenho aparelho de som, meu irmão sim, nada mais justo.

– Preciso reencontrar este livro do Augusto!

Falo como quem precisa urgentemente das longínquas datas, as velhas estações.

Augusto, quebrarei as imagens dos meus próprios sonhos. Esta é a noite dos vencidos, conheci as dores, as maldades, a podridão meu velho, não morreram as suas sementes, vão-se os sonhos nas asas da descrença!

Mocidade ergue o teu grito! Eu que sou velho, sussurro?

– Então, posso roubá-lo de ti?

– Não, se for assim não empresto!

– Pode deixar, quero apenas revê-lo. Lerei, baterei uma foto e logo devolvo.

– Certo.

– Certíssimo!

Lá em casa, Terezinha minha mãe e Roberto meu pai, falavam de James Dean, Natalie Wood, Marlon Brando, Ava Gardner…

Mary minha irmã, ouvia Peter Frampton, Andy Gibb e com ela conheci Charles Schulz, a turma do Snoopy e Charlie Brown. Ninguém mexia comigo na frente dela, era a Lucy e eu – Que puxa!

Sandra minha outra irmã, uma antes de mim, ouvia Bianca, falava do Vampiro de Curitiba e do Amado, Jorge. Escrevia novelas em cadernos pequenos e lia como se estivéssemos passando o texto para uma gravação. Ela escrevia tão bem.

Meu irmão Pedro, escrevia poesia, fotografava, desenhava, fazia mapa astral. Fã de Raul, Chico, Elis, Milton… me mostrou Nietzsche, Huxley, Castañeda…Graças a ele entrei no show do Raul Seixas e Marcelo Nova, mesmo sendo de menor. Meu irmão é foda!

Augusto foi rei, o seu escarro correndo nas veias tornou-se vício, verso – Meu Deus! e este morcego! Vou mandar levantar outra parede! Hoje só vivo da descrença!

Dos Anjos estava ali, me olhando na capa branca e verde. Lembro dela assim.

Possivelmente não seja.

Vestido de hidrogênio incandescente vaguei em monotonias siderais, Augusto verde, como no escarro do verso, em meu pálido rosto, cloreto de sódio.

– Pode me trazer o livro?

– Quando?

– Amanhã!

– Podemos deixar para a próxima semana?

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