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Passeio Público – Crônica de Eugênio Vinci de Moraes

Domaram o passeio público. Sumiram com os pedalinhos, com a bicicletaria e o restaurante Pasquale. O prefeito vetou a cerveja e a caipirinha que tomávamos em frente ao lago. Há pipocas com bacon, balões e balanços para as crianças. Não vi as putas nem os michês. Talvez estivessem com clientes. O povo da jogatina lixava com cartas de baralho enxovalhadas os tabuleiros de xadrez pintados na mesa.

As araras-azuis, vermelhas e canindés continuam presas. As pernas finíssimas da seriema se entorpecem no retângulo exíguo de sua gaiola. Os papagaios chauá e as jandaias verdadeiras miram tristes para o céu quadriculado acima de suas cabecinhas de pássaro. Espiam melancólicas as garças que sobrevoam o parque e invejam os socós-dorminhocos que ciscam no asfalto do parque, ganham pipocas e penduram-se nos postes de luz antes de aventurarem-se na noite curitibana. As cobras se contorcem no terrário sob os olhares espantados das crianças. Um macaco balança-se robótica e melancolicamente num pneu de borracha.

O prefeito parafusou um gigantesco carrinho de um poderoso supermercado local no centro do passeio inaugurado em 1886. O prefeito poluiu o parque com cartazes e bonecos desse estabelecimento. O lago do passeio público se coça de vergonha, saudoso das putas do Trevisan, dos boleros do Wilson Bueno e das estrepolias do Carlos Careqa nos pedalinhos. No lugar deles, comemora-se o nascimento de Jesus sob rubrica comercial. Não vi as famosas luzes de Natal. Imagino ampliarem a sensação melancólica de andar entre logomarcas e bichos engaiolados.

Uma alameda, contudo, entre dois braços do lago, escapava à domesticação. Bancos de madeira bordavam, serenos, o calçamento. Sentei-me. Um gari solitário raspava a vassoura no asfalto empurrando folhas. As árvores desabriam-se sobranceiras, espapaçando sombras e semeando cheiros vernais. Naquela alameda o silêncio imperava, quebrado apenas por leves chilreios no cimo das copas ou pelos passos de um passante anônimo. Paz acústica e visual. Nada de logomarcas, nada de canções de Natal. Um socó descansava sobre um poste alimentando-se da quietude que se refugiara naquele nicho.

Fui-me embora imaginando as serpentes, os pássaros, os macacos e toda bicharada do parque arrebentando vidros e gaiolas, destelhando os abrigos, derrubando a decoração comercial, devolvendo ao passeio seu aspecto adoravelmente selvagem. Selvagem como é a alma dos curitibanos e agregados que contra-atacam o espírito burocrático e dilapidador dos senhores locais.

 

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