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Quem quer levar o Nobel? Coluna Vate Voraz – Daniel Osiecki

por Daniel Osiecki

No último dia 7 de outubro deste ano, o escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah foi laureado com o maior prêmio literário do mundo: o Nobel. Naturalmente que a premiação esteve nos trending topics literários de todas as redes sociais possíveis e imagináveis por vários motivos. Um deles foi, mais uma vez, o prêmio ser concedido a um autor completamente desconhecido para nós (muito em breve teremos traduções das obras de Gurnah) o que torna quaisquer tipos de críticas negativas ou positivas sobre sua obra incipientes.

 

Outro motivo pelo burburinho, e que deve sim ser comemorado, é o fato da premiação (10 milhões de coroas suecas, aproximadamente R$ 6,2 milhões) ter ido para um escritor negro que sai do eixo eurocentrista (mesmo escrevendo em inglês). Tendo trabalhado durante anos como professor de literatura,  Gurnah pesquisou questões do pós-colonialismo, elementos que também explorou em sua ficção. Dentre outros títulos (todos inéditos em português), constam em sua bibliografia Paradise, By the sea e Admiring silence.

 

Voltando a exatos 57 anos, chegaremos à polêmica recusa do Prêmio Nobel de 1964 por Jean-Paul Sartre. O filósofo francês foi laureado com o prêmio por livros como A náusea, O ser e o Nada, As Palavras e outros, porém recusou o prêmio assim como constar na lista de laureados. Em nota à Academia Sueca, explicitou Sartre:

 

“Senhor secretário,

Segundo algumas informações eu teria este ano algumas chances de obter o prêmio Nobel. Ainda que seja sempre presunçoso falar de um voto antes que este ocorra, tomo a liberdade de escrever-lhe para evitar um mal entendido: por razões estritamente pessoais, não desejo figurar na lista dos possíveis agraciados. Sem que isso signifique questionar a alta estima que tenho pela Academia Sueca e pelo prêmio que ela concede, não posso e nem quero neste ano e nem no futuro aceitar o prêmio Nobel.

Peço-lhe, senhor Secretário, aceitar as minhas desculpas por uma situação que lastimo e crer em minha alta consideração,

Jean Paul Sartre.”

 

Naturalmente que Sartre teve plena consciência de que muitas premiações (o Nobel principalmente) não dizem muita coisa sobre os reais elementos essenciais da obra literária e, muitas vezes, são decisões político-ideológicas.  Prezando por sua liberdade artística e filosófica, Sartre foi extremamente coerente com seus posicionamentos ideológicos, o levando, inclusive, a romper suas relações com Camus (por divergências sobre a Guerra da Argélia).

Concordando ou não com decisões como a de Sartre, concordando ou não com a premiação de Gurnah, ambas as situações têm significados imensos e representatividade (cada situação ao seu modo) da mais alta relevância. Aguardemos as traduções de Gurnah para o português.

 

 

 

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