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Sonho medonho – Crônica de Eugênio Vinci de Moraes

por Eugênio Vinci de Moraes

A noite ia longe e o sono só procrastinava. Ouvi um plaft! Acendi a luz e me deparei com um papel pardo e timbrado largado na mesinha de cabeceira. Era um habeas corpus recusado pela Carmem Lúcia! Cocei a cabeça e um tufo de cabelos negros e oleosos grudaram nas minhas mãos. Notório e longevo careca, corri para o banheiro e, diante do espelho, me vi com as melenas do Luiz Fux. Perplexo ante o tsunami de pelos que ondulava sobre meu bestunto, gritei:

— Data venia, quale est hoc coma!

Rebutei meu aparelho vocálico e a frase em latim de computador se repetiu.

Deus meus, soltei como se fosse um senador romano.

Corri ao telefone para me socorrer do tradutor. Tropecei, dei com a testa ampla na quina estreita da mesa, e rebobinei o latinório pro esmartefone. Daí o que eu falei foi traduzido pra isto:

— Num é por nada não, mas que merda de cabelo é esse?

Voltei ao banheiro pra ver se as coisas tinham voltado ao normal. Não. Tinham piorado. Senador Marcos Rogério, com a peruca do Fux, me encarava do espelho. Me apalpei e saiu-me um “vai vendo Brasil” com aquela empostação de locutor de rádio gospel. Num micromilésimo segundo de esperança, pensei: meno male, o senador Heinze seria pior. Instantaneamente, me vi na cozinha sapateando um bolero. Rebolando, pedi meu desjejum ao garçom do senado federal, que me olhava mefistófilo:

— Quiero una tortilla, empanadas, una enchilada y una taza de cafe, me escapou em um espanhol de beira de estrada mexicana.

Aliviado, desencarnei do senador roraimense, mas senti crescerem-me os bigodes do Zapata. Comecei a degustar lentamente as iguarias mexicanas, mucho receoso, dado o quase falido sistema digestório que sustém esse corpinho de meia-idade com uns dez quilinhos de reserva. Peró, aos poucos fui me libertando e comi como um revolucionário: metralhei a milharada maia toda sem ensaiar arroto, sem correr atrás da cartela de pepsamar, nem prelibar o refluxo da madrugada. Um sonho.

Num segundo después perdi os bigodes e me vi instalado numa cadeira giratória. Súbito, me ameaça a voz escandida de Renan Calheiros:

— Qual sua relação com as milícias?

Respondi, com a voz de Marlon Brando do Poderoso Chefão.:

Ampio e senza restrizioni.

Uma voz randolferodriguiana irrompeu a sala e me pôs a girar na cadeira:

— E sua relação com Flávio Bolsonaro?

— Cercano y amigable, disse com inegável sotaque Tijuana.

— Teje preso!, prorrompeu um coro militar pregueado de vozes senescentes e sebosas.

Acordei de chofre. Saltei da cama e rapei pra frente do espelho que refletia, ufa, esse meu rosto bonito- por-natureza-que beleza. Soltei o palavrão mais pliniomarcosiano da minha vida. Sonhar com a tragicomédia política que baixou neste país foi longe demais, pensei à Pablo Vittar. Voltei pra cama, virei de lado e mergulhei num sonho não menos desgracido. Depois eu conto.

 

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