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Sopa de Friedman

por Regina Ribeiro

Hoje, enquanto tento esquecer esta fome, esta fome que me consome, que parece me devorar, que às vezes me engole de uma só vez sem nem fazer o árduo esforço de mastigar, não, só mete pra dentro, feijão com arroz, e, outras vezes, me corrói, carne de costela, me rói, osso de frango, lambe as mãos, batata frita, se lambuza de mim, molho de tomate de macarrão espirrando nas bochechas, me raspa, calda de bolo de chocolate na panela, esta fome, esta fome que me ingere como se fosse eu o nutriente, essa fome que me ocupa, ocupa meus pensamentos e cada pedaço do meu corpo faminto e necessitado, à beira das exaustão, esta fome que preciso enganar para que não me mate de um só golpe, mas que vá me matando aos poucos, não porque eu queira prolongar meu sofrimento num masoquismo insensato, mas porque, no fundo, tenho alguma esperança, uma esperança vã, que talvez algumas moedas escorram de mãos generosas, generosas e humilhantes, porque há também o prazer da humilhação nas mãos que oferecem. Não, não há inocência, apenas a constatação de que  “não estou no teu lugar, estou acima e, por isso, posso te ajudar, mas não ajudo com coração limpo, ajudo com desdém“.

Esta fome, eu a engano.

Engano quando lembro dos duzentos reais que dei para ajudar na dedetização de uma casa onde sequer morei, apenas estive de passagem, porém, como não sabia se tinha sido eu que trouxera os ratos, se foi atrás de mim que vieram, contribui.

Lembro em seguida do dia em que o pai me levou num restaurante francês. Dizia orgulhoso que nestes restaurantes a apresentação contava tanto quanto o prato. O orgulho e o arrebatamento com que falava eram os daquele que reconhece que ali não é o seu lugar.

Lembro dos 130 que dei para aquela empresa que oferecia um cupom de redução no serviço de transportes, mas, quando cheguei no ônibus, paguei uma multa porque o cupom era falso.

E as cantinas italianas que se espalharam pelo bairro e que me empanturravam por dois dias. Saía delas grávido.

Lembro dessa multa por conta de um cupom de reduções falso e do fiscal que, intransigente, me aplicou a tal multa, parecendo inconsciente do horror do seu trabalho, fiscal de empresa exploradora, que cobra do trabalhador uma tarifa para que ele vá ao seu abate diário, vai morrendo aos poucos e comprando passagem para a morte, morrendo a conta-gotas como eu, que retardo a minha fome com o ódio e contando cada centavo que o mundo me deve.

E os restaurantes a quilo baratos com toda a sua fartura que me empacavam na mesa pra conseguir me mexer, levantar, sair apenas duas horas depois da refeição.

Lembro da companhia de avião que cancelou o meu voo e nunca reembolsou e que pedia minutos infinitos no telefone numa espera infinita, documentos infinitos e paciência ilimitada. E depois faliu.

E os restaurantes japoneses que vieram mais tarde, frescos, caros  e inacessíveis.

Lembro da inflação, os preços subindo desnorteados, feitos maníacos bipolares, ninguém mais conseguia acompanhar, tamanha eram as informações conflitantes cujas verdades não duravam mais que algumas horas para depois serem substituídas por outras verdades, às vezes contraditórias.

Lembro do preço do gás.

E lembro da comida ruim que Juliana fazia e a cara de paisagem que eu metia para dizer «está uma delícia ».

Lembro de ter cortado o cabelo por uma fortuna na Avenida das Aleias por um resultado tosco. Saí mais feio do que entrei, paguei todo aquele dinheiro para ficar meses sem conseguir me olhar no espelho, minha autoestima destruindo-se, indo embora junto com o cabelo e com os poucos reais que me restavam. Tudo indo pelo ralo.

Lembro de ter quebrado o espelho.

Lembro dos cafés gelados, dos brigadeiros prontos de lata, dos bolos secos, dos pães passados, dos biscoitos vencidos, dos ovos coloridos. E, mais tarde, o arroz fragmentado. O feijão bandinha.

Lembro de ter tido que comprar outro espelho porque Juliana lindona não podia se arrumar sem um, não podia sair nas rua sem se olhar, Juliana, a eterna escrava das aparências, até tua comida eu comeria agora. As coxinhas gordurosas da Juliana, a carne ensopada por milênios, a textura que só um cachorro pra conseguir comer mesmo, só um cachorro, eu mastigava até inflamar as mandíbulas, depois sorvia tua sopa insossa, teu arroz papa, tua massa borrachuda, as almôndegas da morte, nossa, Juliana, a que ponto chegamos.

Vejo no jornal que há fila para o osso. Ficam horas esperando, horas de aflição, horas de puro desespero, horas que nunca mais serão reavidas, recuperadas, horas de sacrifício para o grande prêmio final, uma sacola repleta de ossos, mas não, o que estou falando, não é prêmio, o osso também é pago porque aí me vêm a máxima aprendida no primeiro ano da faculdade que nunca pude terminar  « não existe almoços grátis » e eu me lembro do professor falando do Friedman e de seu custo de oportunidade, dos conselhos dados a Reagan e Pinochet e que são de praxe até hoje, da sua querida Universidade de Chicago, ela mesma, a escola que eu posso provar por A+B me pôs aqui, prestes a enfrentar a fila dos ossos, perdendo o tempo , porque afinal, não é Friedman?, tempo é dinheiro, e esse tempo, não é Friedman?, eu poderia gastar procurando um emprego, mas, ora Friedman, Friedman, o norte-americano, Friedman o que você está me assombrando aqui no hemisfério sul?, o desemprego é natural, não é não?

Na reportagem, a moça chora, diz que tem gente que come ainda cru. Repito. O ódio é a única coisa que há. O ódio persiste num mundo que se esvai, única constante em um universo de variáveis, única segurança nesse poço de instabilidade.

O ódio é hoje meu alimento e eu o cultivo. Minha herança canibal, ela, clama a cabeça crua do Friedman para um banquete de se lamber os beiços. Pouco importa que já não haja nada mais que ossos, se for preciso faço da tua caveira, ó Friedman, uma sopa. E direi enquanto chupo os parietais, o ódio, Friedman, é eterno. O ódio nos imortalizará.

 

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