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Heroína, mon amour

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HEROÍNA, MON AMOUR 

De 2016 a 2019 aluguei um quarto no apartamento do escritor Márcio Menezes, no Humaitá. Período em que estive profissionalmente envolvido com teatro mais do que com literatura. Acordava por volta das sete, tomava banho e preparava um café para então me dirigir à Fundição Progresso, na Lapa, onde funcionava a sede da Companhia com a qual colaborava.

A essa hora, Márcio já estava em frente ao computador escrevendo, trabalhando com um punhado de livros de referência espalhados na mesa. O labor literário do escritor começava cedo. Ao longo daqueles quatro anos, se bem me lembro, Márcio escreveu dois romances, uma novela e, pelo menos, três peças de teatro. Um dos romances, justamente este Heroína, Mon Amour.

A primeira parte da obra se passa no Rio. O narrador é diagnosticado com depressão clínica. Ele está destruído pela culpa após a morte da esposa (que ele traía) e do filho num acidente em Petrópolis — sob chuvas intensas um barranco despencou na estrada e soterrou o carro em que estavam.

Mortificado, ele decide abandonar o escritório de arquitetura em que trabalha e se lança numa vertiginosa roda viva regada a álcool (há pelo menos cinco anos eu não encontrava um personagem da literatura brasileira que bebesse tanto).

Cenas ao mesmo tempo dolorosas e tocantes, como a em que o protagonista vê a miragem do filho morto brincando na piscina (“espero ele retornar do fundo da piscina. A água permaneceu imóvel. Não emergiu. Entrei na piscina vazia, sentei na parte mais funda dela, tentei ver meu filho refletido em seu piso azul claro, não consegui”, mais a embriaguês, a relação conflituosa com a mãe e os julgamentos feitos no passado de modo sistemático pelo pai, são narradas de modo assombrado.

Esse fantasma perdido em que o narrador se transformou, escolhe um caminho aparentemente sem volta em direção ao vício, que o levará até o estágio final do seu objetivo: a heroína. Para dar cabo do seu plano de suicídio, Berlim é o destino.

Chegamos então à segunda parte do romance, na qual somos apresentados a certo submundo berlinense. Porém, é justamente nessa Berlim junkie que ele, apesar do uso excessivo de entorpecentes, terá a possibilidade de reencontrar um sentido para si: “acordei com os olhos dela, dois faróis ativos, mantinha os meus sob vigília etílica, dois espelhos onde deveria decidir se queria deixar me refletir neles, ou seguir o abismo, o desejo de amar, ou de morrer, dois abismos distintos, em ambos, sairás ferido de morte.

Há um fluxo furioso na escrita. Com ótimos diálogos, além dos parágrafos com dosadas digressões líricas, a trama é bem urdida e ágil, mas sem demasiados cálculos. O autor se utiliza de variados registros narrativos, que ora aparecem no presente ora no passado. As quebras de expectativa, conforme a ação avança, fazem o romance ganhar em densidade. Há grande liberdade no estilo do autor. E o ritmo jamais enfraquece. Tudo isso faz com que, atravessando os abismos do narrador junto com ele, o leitor de Heroína, Mon Amour viva fortes emoções.

LUIZ FELIPE LEPREVOST

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“Heroína, mon amour” é uma novela sobre culpa e a capacidade do ser humano de reinventar-se ou de desistir de si próprio. O narrador decide não acompanhar a esposa e o filho numa curta viagem à serra, para encontrar com outra mulher; uma tragédia acontece – ela poderia ter sido evitada se ele estivesse presente com seu núcleo familiar? Até que ponto uma única decisão equivocada pode transformar inexoravelmente uma vida? 

Movido pela culpa ele decide – porque questões sentimentais – empreender uma viagem a Berlim para pôr fim ao seu destino com uma dose letal de heroína; na capital alemã, ele cruza com uma jovem que se encontra em um momento oposto ao seu, de reafirmação da existência. O que virá depois é um embate entre a vida, morte, amor e os mais variados e intensos conflitos que podem abranger a alma humana. 

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HEROÍNA, MON AMOUR 

Márcio Menezes

112 páginas

16X23 cm

ISBN 978-65-5361-228-0

R$ 54,70 R$ 27,35

Márcio Menezes é carioca do mesmo ano de “Exile On Main Street” dos Rolling Stones; estreou na literatura com “Todo Terrorista é sentimental” (Editora Record, 2011), seguido de “Barcelona não é Espanha” (Editora Rubra, 2018). Participou das coletâneas de contos “Para Copacabana, com amor” (2012) , “É assim que o mundo acaba” (2013), ambas pela editora Oito e Meio e “2020, o ano que não começou” pela editora Reformatório. No Teatro escreveu “Dois Velocistas no Globo da Morte” (Parque das Ruínas, 2017). Jornalista de formação e Mestre em Gestão de Políticas Culturais pela Universidade de Barcelona, o autor divide um apartamento no Rio de Janeiro com 1.000 vinis.