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Sucupira não é aqui?

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Garçom, traz mais uma cerva/ bem gelada!

O leitor desavisado que não se deixe enganar pela indagação no título deste novo livro de Henrique Duarte Neto. De forma alguma ele expressa uma dúvida, pois reafirma antes a veemência irônica de constatar afirmativamente a naturalização do absurdo que leva à certeza de se dizer que, sim, Sucupira é aqui, onde tudo é possível acontecer.

E, nestes últimos anos, tendo à memória o que foi o país, tudo aconteceu de tal forma que aquela minúscula cidade imaginada por Dias Gomes, a Sucupira do histriônico prefeito Odorico Paraguaçu, de O bem-amado, pareceu confirmar a metonímia insinuada por Henrique: deixando de ser apenas a metáfora imaginada por Gomes, Sucupira cresceu de forma espetacular e se tornou o país.

O Bem Amado demagogo e corrupto que iludia o povo simplório daquela pequena Sucupira, no litoral baiano, com seus discursos inflamados e verborrágicos, reencarnou sem farda, em fraldas (fraudes?!) geriátricas, num recruta zero, agora felizmente já decaído do cargo e muito ocupado em dar explicações à Justiça, após um período sintetizado num dos poemas: “Um Grão-duque expõe planos mirabolantes…/ Toda a tropa perdeu as calças e os fundilhos…/ Choram as viúvas de um palhaço sem graça…/ Já o cortejo espera pelo troar do clarim…”.

Essa Sucupira transtornada e transformada, transparecendo querer retornar à farra com a constatação de que “O clima esquentou”, pede: “Garçom, traz mais uma cerva/ bem gelada!”. O lírico já etílico a essa altura carnavaliza em comparações inauditas o “Fim do Mundo”: “O apocalipse/ e a apólice de seguro” – “O juízo final/ e o juiz de futebol”. Nesse lugar fantasioso o que resta do legado grego não são filosofia, olimpíadas, tragédias, mas o beijo grego!

Por isso, ainda que se vislumbre um senso de humor que tenta superar a ressaca, são notáveis as indagações poéticas que tateiam a identidade com a sensação de estranhamento: “tudo é miragem?/ contemplo o espelho/ e não me reconheço!”. O credo, um esgar, é apresentado desconcertante e enfraquecido: “entre a devoção e o rito,/ um hiato, um vazio,/ locus de um deus claudicante.”

A consumição da natureza aponta a incontestável consumição do corpo e, diante desse impasse, sem futuro, resta a evocação do passado com amargor: o pau-brasil virou mastro de mentecaptos em meio a viúvas de vivos, fagueiras na fantasia da extinção do outro.

Daí que entre o “crer e maldizer” da “nação vira-lata”, resta o senso de humor poético que tenta saídas nas constatações irônicas: o poeta marginal enriqueceu e, da Grécia, o legado que restou é o beijo grego. Estamos, portanto, em meio a um Humano Colapso anunciado, daí que, ué, “Sucupira não é aqui?”, então só resta ser enfático: “Garçom, traz mais uma cerva/ bem gelada!”

Ademir Demarchi

Sucupira não é aqui?, de Henrique Duarte Neto

ISBN: 978-65-5361-215-0
Páginas: 72
Formato: 16×23

R$ 49,70 R$ 24,85

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Poeta e ensaísta, nascido e residente what is the most important reason not to allow the knee to cave inward during a lunge jump exercise? no interior de Santa Catarina, Henrique Duarte Neto já publicou alguns livros de crítica literária e outros tantos de poesia, sendo que esta última também se encontra parcialmente disseminada por algumas revistas e blogs nacionais. É graduado em Filosofia e doutor em Literatura, pela UFSC, com Pós-Doutorado em Estudos Literários, pela UFPR. Persegue no poema aquilo que seria o seu sumo – inesgotável e salutar busca.