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O chihuahua hesita na porta do vagão do metrô. O homem que o acompanha entra e chama. Nada. Damos um zoom no cãozinho. O apito da porta corta como estilete o ar art déco da estação Raspail. Nada nem ninguém respira, que desfecho isso? Pelos brancos no focinho, nada de pular pra dentro, “perro parisiense, o que te paralisa?”. Os braços débeis do velho (ufa!) que o alimenta e compartilha com ele as ruas da capital francesa, sem coleiras ou guia, içam-no pra dentro.

Os passageiros fazem festa pro cachorrinho. Um deles não resiste, põe no colo, acaricia e beija – breve folia gaulesa nos vagões disciplinados da cidade luz. A maioria dos moradores daqui entra e prega o pé no piso do vagão, só voltando a se mover na hora de descer. Ninguém reclama nada de ninguém, mesmo quando o passageiro estaca como uma Vitória da Samotrácia na porta do vagão. Um “pardon, madame” aqui, um “pardon, monsieur” ali abrem os caminhos, meu Pai. Quando sentados, só se levantam para desembarcar, lotado que esteja o carro. Não introjetei esse hábito franco, meus glúteos contraem-se logo que o locutor avisa a aproximação da próxima ârret e me põem em pé. Minha confiança na República é zerrô.

Estação Galincourt

Na estação Galincourt, um professor toca um bando de pequenos gauleses pro vagão. Os piás e as gurias não têm mais de seis, sete anos. Todos conhecem bem a língua do trem, não carecem de tradução. Pela quantidade de carrinhos de bebês que vi embarcar no transporte público local, compreendi a desenvoltura da meninada. Uma mãe com bebê enrolado nas costas, empunhando um carrinho com um piazinho dentro, com mais dois rebentos soltos de quatro palmos de altura, entra no ônibus sem transpirar.

Todos parafusam-se ligeiros no machibombo europeu. Um pai vestido à personagem de Godard embarca na Place de Italie e deixa o carrinho com a filha no hall do coletivo. Encaminha-se nuvellevaguemã até a frente do ônibus para validar o bilhete, volta pra perto do nenê, encosta-se, de pé, na janela e abre uma magazine. Só várias paradas adiante é que a bebê resolve sair do anonimato e exigir um close-up do pai.

Gurizinho ardido

Às vezes a coisa desanda. Um gurizinho ardido entra esgoelando no silencioso ônibus elétrico numa rua de Ménilmontant anunciando ao mundo gaulês que não quer estar ali. O piá, dois dedos de altura acima do meu joelho, arma um salseiro. Trança por baixo das pernas dos passageiros fugindo da irmã – só um ano, aposto, mais velha que ele –, chega à cabine do motorista, dá um cavalo de pau, chispa pro fundão, mas nada disso impede a irmã de persuadi-lo de que aquele é seu destino. Aquieta, finalmente.

Cogito que o chihuahua do quinto distrito de Paris e o piá do vigésimo sentiram algo estranho diante do ordenado mundo do transporte coletivo da capital francesa. Têm a minha solidariedade. Há algo nesse mundo bem-feito, cordato e ordenado que não orna, pois há um outro – que conheço bem – mal costurado, violento e desregrado, criatura e criador daquele, seguindo no mesmo trilho há séculos.

Eugênio Vinci de Moraes é bacharel em Língua e Literatura Portuguesa e Italiana (2001) e doutor em Letras (Literatura Brasileira) pela Universidade de São Paulo (2007). É professor de Língua Portuguesa do Centro Universitário Uninter (UNINTER-PR) desde 2008, editor da Revista Uninter de Comunicação desde 2013.

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