
Por José Manoel Ferreira Gonçalves
A conquista inédita de uma estatueta do Oscar por uma produção integralmente brasileira constitui um marco significativo na trajetória do cinema nacional. Em 2025, a obra cinematográfica Ainda Estou Aqui, dirigida por Walter Salles, foi laureada com o prêmio de Melhor Filme Internacional, consolidando décadas de esforços que alçaram o Brasil ao reconhecimento dentro do panorama global do cinema. Este evento representa não apenas uma vitória simbólica, mas um ponto culminante de maturidade estética e narrativa da cinematografia brasileira.
Até então, diversas obras brasileiras haviam alcançado notoriedade internacional ao serem indicadas ao Oscar, especialmente na categoria de Melhor Filme Internacional. Destacam-se, neste percurso histórico, filmes como O Pagador de Promessas (1963), dirigido por Anselmo Duarte; O Quatrilho (1996), de Fábio Barreto; O Que É Isso, Companheiro? (1998), de Bruno Barreto; e Central do Brasil (1999), também de Walter Salles. A premiação de Ainda Estou Aqui reforça não apenas a continuidade, mas também o desenvolvimento qualitativo e conceitual da produção cinematográfica brasileira.
Além das indicações na principal categoria para filmes estrangeiros, diversas produções nacionais demonstraram sua capacidade técnica e criativa em outras categorias da premiação. Em 1960, a coprodução franco-brasileira Orfeu Negro venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional. Obras como Raoni (1981), O Beijo da Mulher-Aranha (1986), Uma História de Futebol (2000), Cidade de Deus (2004), O Menino e o Mundo (2016), O Touro Ferdinando (2018) e Democracia em Vertigem (2020) foram indicadas em diversas categorias, ilustrando a heterogeneidade temática e estilística que caracteriza o cinema brasileiro contemporâneo.
No âmbito individual, destacam-se ainda os reconhecimentos às atuações excepcionais de intérpretes brasileiros. Fernanda Montenegro, em 1999, obteve a inédita indicação ao Oscar de Melhor Atriz por sua performance em Central do Brasil, tornando-se a primeira latino-americana a disputar essa categoria. Em 2025, Fernanda Torres reafirma o talento brasileiro com sua indicação na mesma categoria, graças ao seu desempenho em Ainda Estou Aqui. Tais reconhecimentos contribuem para reforçar a inserção internacional do cinema nacional, abrindo perspectivas ainda mais amplas para futuras gerações de cineastas e intérpretes brasileiros.
Baseado no livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, o longa-metragem Ainda Estou Aqui retrata a vida de sua mãe, Eunice Paiva, após o desaparecimento de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, durante a ditadura militar brasileira.
A narrativa se desenrola no início dos anos 1970, quando Rubens Paiva é levado por agentes do regime e nunca mais retorna. Eunice, interpretada por Fernanda Torres, enfrenta não apenas a dor da perda, mas também a luta incessante por justiça e pela verdade sobre o destino de seu marido. A trama destaca a resiliência de Eunice e sua transformação em ativista pelos direitos humanos, refletindo a coragem de muitas famílias que sofreram com a repressão do período.
O filme expõe de forma contundente os horrores da ditadura militar, evidenciando a brutalidade e a arbitrariedade do regime. Através da história da família Paiva, o espectador é confrontado com a realidade de desaparecimentos forçados, torturas e a impunidade que permeava o sistema. A obra serve como um lembre constante dos perigos do autoritarismo e da importância de preservar a memória histórica para evitar a repetição de tais atrocidades.
Além de sua relevância histórica, Ainda Estou Aqui é uma realização cinematográfica de alto nível, com atuações marcantes e uma direção sensível que captura a essência do drama vivido pelos personagens. A conquista do Oscar não apenas reconhece a qualidade artística do filme, mas também reforça a importância de se discutir e refletir sobre períodos sombrios da história, promovendo um diálogo necessário sobre justiça, memória e democracia.
Impossível deixar de pensar que, não obstante a qualidade estonteante do filme, tenha passado despercebido de Hollywood a importância de chamar a atenção para um filme com esta temática. E não podemos deixar de lembrar que foi por meio da Comissão da Verdade que se descobriu quem foram os autores da morte de Rubens Paiva, e foi também por meio dela que Eunice Paiva finalmente recebeu um atestado de óbito do marido, podendo assim, por um lado lavar a alma, por outro organizar sua vida civil, algo que lhe foi roubado pelo próprio estado, ao matar e ocultar o cadáver de Rubens Paiva.