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Lábios trêmulos flamulando emoções, já, já se esvai em lágrimas, posso ver daqui, onde pairo sobre as suas torrentes.

Desestabilizado evita olhares dos caminhantes em romaria, segue o cortejo até o momento do último adeus.

Cobertos em pano preto, alguns choram, outros rezam, será assim com a maioria dos viventes, já, já o tempo muda. Fito o volume das nuvens, procuro novamente por ele, olhos vermelhos, calça surrada, pele de quem já viu muita coisa acontecer embaixo do sol, as suas lágrimas parecem não dar trégua, oceânicas.

Aquela se foi com a idade, a outra o silêncio a levou, aquele a tristeza e a saudade calou o coração,

Tantos nomes, sobrenomes, fotos, flores, neste jardim de cimento.

 Retorno ao chorão, ele parece ter mais de sessenta anos, carrega nas mãos um balde de ferro com cimento e uma espátula, é o que consigo enxergar, presumir, entre pedaços de braços, cabeças, ombros e tudo mais que emoldura a cena.

Estou aqui por acaso, digo antes de mais uma vez tentar encontrar quem são os filhos, a viúva ou viúvo, os parentes, na verdade, estou aqui por causa dele, disseram-me que havia um homem que se emocionava em enterros de pessoas que nunca ouviu falar, não era parente, não conhecia ninguém.

As suas cavas no rosto. Já, já tantas covas para fechar.

 Comovido prepara a massa, quantas vezes este homem põe-se a chorar neste trabalho, em seu dia a dia de assalariado?

Aquele ali gostava de se drogar o outro tomava chá, aquela comia verduras, aquele gostava de fumar, alguém gostava de parar, alguém não parava de julgar, a criança ceifada cedo nos jardins da doença, depois em disparada, o estrondo, saco preto, IML, adeus.

É adeus ao nome, adeus aos amigos, adeus ao amor, adeus a mãe, adeus aos avós, adeus aos irmãos,

adeus ao pai, adeus aos familiares, adeus as amigas,  adeus ao cachorro, adeus a tudo que amou, adeus ao poema, quem sabe, bem vindo Deus, adeus ao que fomos.

Abaixo a cabeça, minhas lágrimas também começam a navegar.

Já, já é hora de partir, deixar o funeral, olhar pela última vez para ele, o coveiro emudecido em choro, com olhos molhados, abana a cabeça, percebe o meu a perscrutar, aceno pequeno, já, já estará em casa, com sua mulher e os netos, quem sabe uma sopa lhe espera, um bar, um banho quente, outro enterro.

“A vida é uma enganação”, disse o meu avô Pedro para minha mãe Terezinha quando lhe visitou em sonho, nas brumas. “Estarei sempre no seu coração”, foi o que minha mãe me disse, dias após falecer, em um sonho, mais real e profundo que a própria vida.

Já, já um novo amanhecer, algumas escolhas erradas, um prato de bife a milanesa, um trabalho, um beijo, uma saudade, uma cerveja, outra saída, já, já é sexta feira, alguma viagem, outro livro para ler. Já, já, quem era, já foi.

Essa loucura tem que deixar de ser criança, encarar os fatos.

Já, já chove forte na cidade adormecida. Já, já o tempo voa.

Fabio Santiago nasceu em Maceió (AL), em 1973, e está radicado em Curitiba (PR). Publicou os livros A marca do vampiro (compre aqui, 2023), Cantos temporais e Mar de sombras, ambos em 2022, Versos magros (2021) e Intramuros (2020). É formado em Comunicação Social e criador do blog Acre infuso, ativo desde 2004. Redes sociais: @fsantiago006 (Instagram) e Fabio Santiagoc (Facebook)

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